Casey Affleck recebeu o #Oscar de melhor ator pela performance no filme "Manchester à Beira-Mar". Ao ser agraciado com a maior premiação do #Cinema norte-americano, é certo que sua carreira irá se alavancar ainda mais e ele passará a ser convidado para inúmeras produções, tendo de contracenar com outras atrizes, independente do temor que elas possam sentir diante das acusações de conduta abusiva.

Em 2010, Casey Affleck dirigiu o documentário-comédia "Eu ainda estou aqui" e seu comportamento durante as filmagens foi apontado pela produtora Amanda White, que abriu um processo no valor de 2 milhões de dólares contra ele: além de se referir continuamente às mulheres como "vacas", obrigou um dos membros da equipe a abaixar as calças e mostrar seu pênis a White; insistindo para que White dividisse o quarto de hotel com ele, a intimidou fisicamente, agarrando seu braço e forçando submissão, e então passou a mandar mensagens a assediando depois de receber uma resposta negativa.

Magdalena Gorka, diretora de fotografia, acordou com Affleck deitado a seu lado na cama, apenas de cueca e camiseta, na casa em que a equipe dividia; após conseguir tirar Affleck de seu quarto, ela conta que passou a ser perseguida por vários membros da equipe e deixou as filmagens devido ao bullying constante.

O ator não é o primeiro a ser premiado pela Academia mesmo depois de ser acusado de cometer assédio contra colegas de trabalho, privilégio conferido a diversos homens pela sociedade. Exemplos não faltam.

Donald Trump, acusado por mais de 20 mulheres de conduta inapropriada (que vão do assédio verbal ao estupro da própria esposa), já foi filmado inúmeras vezes fazendo comentários machistas e absurdos como o de que basta agarrar uma mulher "pela bu****" para conseguir sexo. Ainda assim, foi eleito presidente.

Roman Polanski, que confessou o estupro de uma garota de 13 anos de idade após tê-la drogado (e fugiu para a França antes de sua sentença ser proferida, evitando qualquer país em que pudesse ser extraditado de volta para os E.U.A.), recebeu, em 2003, os Oscars de melhor diretor e de melhor filme por "O Pianista".

Woody Allen, acusado em 1992 por sua filha adotiva, Dylan Farrow, de tê-la estuprado quando ela tinha apenas 7 anos (em carta aberta ao The New York Times em 2014, Farrow reiterou as acusações e abordou todo o sofrimento pelo qual tem passado por ter sua integridade e a veracidade do caso questionadas até hoje), não sofreu consequência alguma por seus atos e continuou - e continua - sendo elogiado, inclusive no Oscar, quando Cate Blanchett recebeu o prêmio de melhor atriz em 2014 pelo filme "Blue Jasmine".

A lista de agressores inclui ainda Mel Gibson (que concorreu no Oscar deste ano como diretor), Marlon Brando e Bernardo Bertolucci, Johnny Depp, Bryan Singer (acusado de envolvimento com uma rede de pedofilia que atua em Hollywood), Sean Penn, Eminem (com letras em que abusa verbalmente e ameaça a ex-esposa, ele ainda assim ganhou o Oscar por "8 Miles") e muitos outros.

O privilégio de uma carreira bem sucedida após acusações de abuso não é concedido a artistas e famosos negros, como aconteceu com o diretor Nate Parker, cujo caso de assédio sexual veio à tona no início deste ano e recebeu ampla cobertura da mídia, fazendo com que ele perdesse qualquer chance de indicação ao Oscar - bem diferente de Casey Affleck, inclusive em relação a como os noticiários tratam as acusações. Outro caso emblemático é o de O. J. Simpson, preso até hoje, apesar de investigadores apontarem inconsistências na investigação - ao que parece, trata-se, sim, de prisão merecida, mas que não acomete indivíduos como Roman Polanski, por exemplo.

Enquanto muitos celebram as merecidas vitórias de Viola Davis e do filme "Moonlight: Sob a Luz do Luar", é preciso lembrar que pouco ou nada mudou na mentalidade da Academia. Os prêmios dados a mulheres e negros servem, antes, para disfarçar a continuidade dos privilégios aos homens brancos que formam a maioria na indústria do cinema. #machismo