Toda mulher negra já nasce com um desafio: a aceitação. Desde a infância enfrentam situações desconhecidas por boa parte da população. O cabelo crespo ou volumoso, que insiste em crescer pra cima; a falta de identidade visual na TV, nos desenhos, nos livros; discriminação dos coleguinhas de escola... são adversidades que crescem ao longo da vida e que simplesmente tem que ser administradas, por vezes em silêncio, sem a ajuda dos pais, que não entendiam ou não conseguiam perceber a gravidade e a importância da situação.

Diante de tantos desafios era necessário desenvolver habilidades para resolver estes conflitos e seguir em frente, ignorando, nem sempre, as cicatrizes que a infância sem referencial havia deixado. Simplesmente fingindo que o problema não existia, alisando os cabelos, descolorindo os pelos, sonhando com uma cirurgia plástica para afinar o nariz e negando muitas das características físicas e históricas do povo preto.

Toda menina preta tem uma sina…

Era como uma triste sina: quando #criança não encontrava elementos representativos no universo infantil; na adolescência era, diversas vezes, invisível aos olhos dos rapazes e quando adulta, corria - e ainda corre - sérios riscos de ser #objetificação sexual de homens que a enxergam apenas como uma “máquina de sexo”.

No entanto, não dá para dizer que as coisas não estão mudando. Há alguns anos a sociedade, a indústria e os meios de comunicação começaram a perceber - não por conta própria - que não é possível simplesmente ignorar as meninas pretinhas. As crianças de hoje já crescem percebendo o seu lugar no mundo de uma forma mais integrativa. Ela consegue se ver na TV, argumentar melhor contra o bullying na escola e vai se desenvolvendo com mais sabedoria, mais aceitação, mais personalidade e cheia de orgulho por ser do jeitinho que é.

Tem mais recursos, inclusive psicológicos, para se aceitar e lutar pelos seus objetivos sem o receio de não ser aceita por sua cor ou por seu cabelo crespo.

Mesmo assim, é impossível dizer que estamos - enquanto sociedade - perto do que é aceitável. É simplesmente intolerável que no desenho ou na novela infantil tenha apenas um personagem preto, que ele seja sempre o mais pobre ou o serviçal ou que nas lojas de brinquedos infantis tenha apenas um modelo de bebê preto.

A mudança já começou, mas está infinitamente longe do admissível. #meninapreta