Muitos anos atrás, a escritora Susan Sontag escreveu dois textos que recomendo fortemente: A doença como metáfora e Aids e suas metáforas. Nas minhas palavras, Sontag, portadora de câncer, elencou três doenças que têm “aura”: a tuberculose, a doença da pobreza; o câncer, a doença da pena; a #AIDS, a doença da libertinagem. O tuberculoso é o “nojento”, o perigo; o portador de câncer é o “coitado”, o doente de Aids “mereceu”. Se tivesse vivido até agora, talvez Sontag incluísse a obesidade, pois esta também é hoje a "doença de quem merece".

O problema da Aids sempre foi ao que ela se relaciona: o sexo. O portador foi visto como uma pessoa que se entregou aos "prazeres mundanos", teve uma vida "desregrada", "não se cuidou", foi "irresponsável" – e, assim, deveria receber a "paga" por seu comportamento.

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Qualquer semelhança com a noção cristã de pecado não é mera coincidência, pois ao ser, via de regra, adquirida no ato sexual – e, muitas vezes, o ato sexual homossexual, proibido e condenável –, a Aids evoca o pecado da luxúria. O discurso contra a #obesidade se constitui de forma idêntica, mas o pecado da vez é a gula.

Sejamos sinceros? O discurso antiobesidade, ou antiobesos, de terceiros, calcado em preocupações "médicas" é, em boa parte, mentira. Sim, faz parte das preocupações da saúde pública divulgar os malefícios potenciais da obesidade, mas, quando chegamos ao nível individual ou particular, a verdade é que tradicionalmente não nos preocupamos com as doenças, vírus ou bactérias de quem não conhecemos, a menos que representem um risco para nós mesmos. Não raro, até nos sentimos aliviados por não termos aquele problema.

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Assim, a razão por que os corpos #Gordos são recriminados é, na verdade, eminentemente estética, por causa do modelo de beleza que temos. Pessoas que não são gordas muitas vezes consideram corpos gordos indesejáveis, e quem é gordo e quer deixar de ser muitas vezes é para ser mais desejado.

Excetuando-se problemas de saúde já instalados, o apelo do medidor de pressão arterial é menor que o estético. Aliás, assim como o apelo de um problema hepático é menor do que o corpo bonito dos usuários de anabolizantes, que posam como "saudáveis" nas academias.

Boa parte dos obesos mórbidos deseja deixar de sê-lo, e até quem não chegou lá também. O principal motivo é estético, como pontuei, mas, por vezes, o problema de saúde que se apresentou é também importante.

Dessa forma, eles não precisam que pessoas que nada sabem de suas vidas os recriminem. Na verdade, a vida deles seria muito mais fácil sem elas, porque é delas que vem boa parte do sofrimento.

Ademais, uma pessoa gorda ou com sobrepeso e uma vida ativa, em termos puramente fisiológicos, é mais saudável do que um magro sedentário...

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Mas nenhum desconhecido se "preocupa" tanto com a saúde deste último, não é?

Se a questão já está bem definida que é estética, não vejo nada demais em uma certa valorização de corpos com sobrepeso, ou mesmo obesos. Falamos de saúde pública, mas a vivência da saúde é, na verdade, brutalmente individual.

Nada sabemos do gordinho ou gordinha ali à frente; e se sua saúde for melhor que a nossa? Nós, que eventualmente fumamos, bebemos, usamos determinadas drogas lícitas ou ilícitas e até fazemos sexo sem camisinha? Supostamente, não são essas práticas também "irresponsáveis"?

Pessoas gostam de ser valorizadas, desejadas, admiradas. Para quem está em tratamento contra a obesidade ou sobrepeso, se é que precisa, isso é de enorme ajuda. A valorização aumenta a autoestima, leva-as a provar o amor e o sexo e abre as portas de um mundo onde o IMC mais alto pode ser até excitante.

Por que isso seria ruim? E por que falso, se há quem as deseje? O discurso da aceitação foi que sempre faltou, não o da recriminação ou o da saúde, e não vejo por que eles não possam conviver e permitir às pessoas se sentirem bem consigo mesmas estando gordas, emagrecendo, magras ou saradas, em vez de apenas na ponta final dessa escala.