Sim, eu sou a favor que brancas usem turbantes. Eu sou a favor que brancos usem turbantes; #negros também, homens negros; e pessoas orientais, indígenas, vermelhas ou azuis. É uma pena que o tema tenha voltado à baila com a polêmica história de uma mulher branca que teria sofrido assédio por usar um.

Por mais que admire, e apoie, o uso do #turbante como manifestação estética de orgulho étnico, excitando um modelo de beleza que dialoga com os traços da mulher negra em vez da imposição eurocêntrica, não considero evolução alguma impedir ou criticar o uso desse acessório, ou qualquer outro, devido à cor da pele e utilizando o argumento questionável da “apropriação cultural”.

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Até porque culturas não são entes isolados: dialogam, são absorvidas, remodeladas, refeitas, expandidas, ressignificadas. Se são ressignificadas, são “apropriadas”.

Uma africana não usa um turbante para se afirmar enquanto negra, como faz uma brasileira. Também não há, na África, a ideia de “africano” como uma identidade transnacional que agregue todos os negros. Em um continente tão diverso, as pessoas são ligadas a seus grupos étnicos, às suas tribos, às religiões, às vezes a seus países, mesmo que com fronteiras desenhadas pelas potências ocidentais.

Na África, é a isso que se refere o uso do turbante. As cores, motivos e até o jeito de usar, muitas vezes, relacionam-se a uma herança de determinada etnia, cultura ou país e, ao usá-lo, a mulher se afirma como pertencente àquele conjunto.

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Quando, no Brasil, esse mesmo turbante é descontextualizado desse uso e passa a ser ressignificado para afirmar um orgulho pan-negroide de afirmação identitária, os negros brasileiros o ressignificaram, se apropriaram – e o fizeram sem pedir licença à africana nativa. Não faz sentido, portanto, que impeçam, sob o argumento da “apropriação”, que outros o façam.

Em que pesem serem filhos da diáspora e procurarem na África ancestral referenciais culturais de orgulho, beleza e identidade, o que é admirável, é preciso que os negros no Brasil entendam que eles são brasileiros. Toda a cultura forçadamente importada pelo Brasil foi aqui reestruturada e remodelada para formar a nossa cultura negra, que difere do processo histórico vivido pela África.

O candomblé não é uma religião africana, por exemplo. É uma religião brasileira com elementos africanos, portanto afro-brasileira, com algumas diferenças importantes em relação ao rito dos iorubás e até com misturas culturais com outros povos negros que os próprios iorubás não fizeram.

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Por sinal, na África de hoje, com uma significativa população muçulmana, algumas práticas de orgulho identitário negro que encontram significado no Brasil seriam razão de problemas com a lei. É que hoje, em lugares como no norte da Nigéria, no Sudão ou na Etiópia, o islã participa da identidade africana e negra local – ou, melhor dizendo, etíope, sudanesa ou nigeriana –, e a Sharia impõe penalidades, ainda que tenha origem árabe. O turbante, aliás, nem mesmo tem origem africana ou negra.

Curiosamente, o elemento islâmico, para ficarmos no exemplo, não foi absorvido pelos negros brasileiros, mesmo que nossa história registre, na Bahia, a Revolta dos Malês, empreendida por negros muçulmanos da África. O que é isso? Não é seleção, ressignificação, remodelagem... Apropriação? No caso, selecionando-se que elementos serão assimilados, como no caso dos orixás, e elementos que não serão assimilados, como no caso da tradição corânica, pelos negros brasileiros em busca de sua afirmação identitária pós-diáspora?

Portanto, usem os turbantes, sim. Entendam que hoje ele tem uma importância na construção de uma identidade e valorização da beleza negra e respeitem isso, mas não deixem de usar. Em pleno século XXI ocidental, quando mulheres podem usar terninhos e homens, aos poucos, podem voltar a usar saias, soa um tanto século XIX deixar de fazer o recorte por gênero para voltar a fazer por cor da pele. #África