Em função do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, muitas lojas e estabelecimentos comerciais em geral aproveitam a ocasião para celebrar a data e oferecer um "agrado" às clientes e consumidoras em potencial. Não há nada de errado em querer alavancar as vendas lançando mão de estratégias baseadas em datas específicas, trata-se de algo comum pela lógica capitalista.

O grande problema é que, em se tratando do Dia da Mulher, o que mais testemunhamos são campanhas sexistas, que reforçam papéis, características e comportamentos historicamente impostos às mulheres como cuidadoras do lar, românticas, vaidosas, emotivas, delicadas e toda aquela lista de adjetivos tradicionalmente associados a uma "essência feminina".

Um exemplo de campanha baseada no estereótipo feminino é o da livraria Saraiva, que passou a anunciar, esta semana, 50% de desconto em livros e produtos para as compradoras. A promoção envolve somente uma gama limitada de obras, deixando de fora publicações acadêmicas, de ciências exatas e biológicas, didáticas, de idiomas, de direito, informática, medicina, entre tantas outras. A divisão das categorias mostra a superficialidade da tal celebração: românticos; fitness; fashion; religiosos; para dançar; para mamães; para os negócios; para o escritório; geek; tecnologia; música; filmes e séries. E mesmo os rótulos em promoção não comportam todas as obras que caberiam, como é possível notar, por exemplo, com o número pequeno de títulos de estudos feministas com desconto.

Além disso, o que mais vemos nas ruas e shoppings são estabelecimentos distribuindo flores ou pequenos brindes, não havendo espaço para campanhas mais sérias, que abordem a real importância do dia 8 de março.

Acabamos de passar pelo carnaval, período em que os assédios contra mulheres sobem exponencialmente. Somente nos dias que compreendem a festividade, a central do "Ligue 180" recebeu 2.132 ligações reportando abuso - isso sem falar nos inúmeros casos em que as vítimas preferem não reportar.

Segundo relatório da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, foram realizados 13.212 casos envolvendo crimes contra mulheres no ano de 2016, apenas na região do DF. Já no Rio de Janeiro, o Tribunal Regional informa receber em média 118 casos de lesão corporal por dia. No país, uma denúncia de violência contra a mulher é feita a cada 7 minutos. Não obstante, o Brasil continua a ser o que mais mata travestis e transexuais no mundo (sim, o Dia das Mulheres também é um momento para falar dessas pessoas que se identificam com o gênero feminino).

De acordo com o estudo "Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça", divulgado ontem, dia 6 de março, na página do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados históricos recolhidos de 1995 a 2015 pelo IBGE, as mulheres trabalham 7,5 horas por semana a mais que os homens em média, sendo que 90% delas ainda realizam tarefas domésticas. Ainda assim, a média salarial das mulheres se mantém proporcionalmente menor em relação aos homens.

Este ano, estão marcados protestos em inúmeras cidades ao redor do mundo, visando a uma paralisação geral das mulheres contra a violência e a desigualdade de gênero. #machismo #Feminismo #DiadaMulher