Desde a década de 1990 a música brasileira ganhou um forte apelo popular, servindo muito mais ao mercado de consumo, com uma função apenas de entretenimento, transformando-se em uma música mais corporal e menos cerebral. Exemplo disso são as letras que exploram apenas nossos sentimentos mais primários unidas à melodias de fácil assimilação pra grudar, fixar e não sair mais da mente.

Para comprovar o que digo é só nos lembrarmos que, na referida década, surgiu um milhão de grupos de pagode e foi o período da ascensão do sertanejo e do axé. Não quero que pensem que estou tentando promover algum tipo de preconceito contra esses estilos e sim que vocês constatem o que digo: a maioria das músicas dessa época falavam de amor, de festas ou de danças.

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As temáticas citadas acima sempre existiram em todas as épocas, mas de lá pra cá estamos aprisionados apenas a isso, somando-se atualmente a ostentação e o sexismo machista do funk e do sertanejo universitário. Hoje é pior porque há duas décadas existiam exceções.

Na década de 90 o movimento mangue beat misturou elementos culturais e ritmo nordestinos com o rock and roll, hardcore e o hip-hop. Suas letras eram poéticas e fugiam das temáticas típicas das músicas de #sucesso da época. Houve Mamonas Assassinas que, com toda sua irreverência, nos trouxe algo criativo e diferente.

Nas décadas de 60, 70 e 80 tivemos diversos compositores que nos brindaram com canções ricas em melodias, harmonias e letras com temas que exploravam o universo, as diversificação das consciências humanas, as imanências e transcendências.

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Além da função de entretenimento a música tinha função ideológica e política. Compositores protestavam contra velhos valores e contra o sistema pré-estabelecido.

Cantores e compositores opositores ao regime militar tiveram canções censuradas, foram presos ou exilados pois havia um desejo de mudar o mundo. Existia também a jovem guarda, que era um movimento mais juvenil e apolítico. O samba rock era um estilo mais dançante feito pra entreter.

Havia uma diversidade: musicas para chorar, dançar, pensar e enriquecer nosso espírito e vocabulário. E hoje em dia? Bem... temos um zilhão de cantores e bandas que parecem ter saído de uma linha de produção. Difícil definir quem é quem dentro de seus respectivos estilos: temos o sertanejo universitário, em que os cantores têm vozes iguais, cabelos iguais, roupas iguais e letras que falam apenas de sexo, balada e bebedeira.

O funk carioca segue a mesma regra, só que com um vocabulário muito mais limitado e letras mais agressivas com conteúdo machista, em que a mulher é um mero objeto que está à mercê do macho dominador, além da intensiva campanha ostentação confirmando que nos dias de hoje os jovens dão muito mais importância ao ter e menos ao ser.

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Essas músicas são as que ouvimos no dia a dia, nos canais de TV, nas rádios, nas redes sociais, nas praias, nos barzinhos, nas festas, convenções sociais e em todos os lugares. Essas músicas enlatadas e sem conteúdo nos perseguem e é triste porque dificilmente você vê alguém que escuta algo diferente... não temos pra onde fugir! A música virou apenas um entretenimento vazio, pobre e sem dimensão. Estamos atolados no lugar comum.

Triste essa minha constatação, pois sei que existem vários artistas perdidos nas esquinas do Brasil: compositores, cantores e instrumentistas. Muitos deles morrerão no anonimato, enquanto outros, de qualidade duvidosa e sem conteúdo, ganham prêmios e são aclamados por um povo que só quer saber de remexer os quadris e balançar a bundinha enquanto pagam os impostos mais caros do mundo, sofrem as barbáries dos altos índices de violência e se contentam com um salário de miséria. #Cantor