Talvez o que eu esteja para contar seja uma das coisas mais dolorosas que eu tenha feito na minha vida, mas diante de tanta coisa acontecendo, não vejo outra maneira.

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A partir de hoje eu decidi que as coisas seriam diferentes e sabe... Que uma boa parte das minhas dores eu teria de deixar para trás. E estar aqui agora faz parte disso.

Eu venho acompanhando a repercussão que "13 reasons why" vem tendo, mas não necessariamente a compreensão que merecia ter.

Eu vou me apegar a um dos fatos que serviu de experiência em algumas etapas da minha vida: o abuso. Talvez essa seja minha tentativa para as pessoas entenderem que nada é tão simples a ponto de se resolver com um estalar de dedos.

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O abuso costuma entrar nas nossas vidas bem cedo, no nosso convívio escolar já estamos sendo submetidos ao Bullying. O Bullying poderia ser medido em escalas até para que as pessoas pudessem entender as consequências tanto para quem pratica, mas principalmente para quem sofre.

Eu vim de instituições de ensino onde os próprios docentes achavam que o bullying fazia parte de uma rotina escolar. Que como já haviam sofrido no passado e viraram "adultos", não tinha grande anormalidade nisso. Que "tudo passa".

Sim, elas passam. Passam da medida e dos limites, só que de humanidade.

A partir do momento que as escolas fecham os olhos para essa "rotina de Bullying" ou só colocam "panos quentes" para "disciplinar" seus alunos a agirem como robôs, essas instituições não estão ensinando, mas compactuando com os traumas de novos seres humanos. E acredite, há um grande número de escolas que faz isso.

Por alguma força, na minha história deu para superar. Eu sei que essa realidade não é a mesma para tantos jovens que escolhem rotas para fugir da crueldade, já que ninguém pode, consegue ou tenta ouvi-los.

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Essa é uma das certezas que as vítimas de abuso sentem, já que ninguém ou quase ninguém está lá para socorrê-los em seu mundo.

O meu período na faculdade, com meus colegas, foi ótimo. Eu considerei que era um presente encontrar uma turma unida depois do caos que eu vivi, mas parece que tudo que é bom dura pouco e então, fora desse ambiente docente, eu me encontrei com as minhas primeiras armadilhas e o que veio realmente marcar a minha história: o #Abuso Sexual e moral.

Assim como a maioria das pessoas que já passou por isso, eu não vim aqui para relatar exatamente o que aconteceu, mas como cada pessoa se sente quando a sua alma é arrancada de dentro de você.

Uma vez, eu lembro de estar numa loja de conveniência escolhendo doces ou algo do tipo. Eu deveria ter entre 14 e 15 anos e eu senti uma mão me tocar entre as pernas. Eu gelei. Me virei para olhar e era um cara que estava sorrindo para mim e me cercando. Eu saí e de repente percebi que ele estava me seguindo, foi quando me juntei a um grupo de pessoas e ele sumiu.

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Casos como esse são considerados comuns, pois o número de ocorrências nos faz nos "acostumar" a atrocidades.

Durante muito tempo eu escolhi viver uma grande dor sozinha, pois eu achava que ela iria se curar. Eu escolhi pequenas rotas e fugas para esquecer o que tinha acontecido. Me culpei sem realmente ser a culpada.

Nenhum banho do mundo vai te fazer se sentir completamente limpa, já que o que está sujo está dentro de você.

Os relacionamentos sempre foram um fiasco, pois determinadas frases que funcionam como gatilho, principalmente quando são usadas em abusos, te servem para você sentir dor e repulsa. A minha era "você não é mulher para relacionamento".

Eu não conseguia me entregar, eu tinha medo. As relações sexuais com dor eram para mim uma forma de me machucar mais ainda para sentir ainda mais forte o que dói por dentro. Era uma punição e a continuação de uma mutilação.

Eu nunca consegui me ver sendo feliz com alguém, pois essa dor inibe qualquer sentido de felicidade. O amor era sinônimo de que as coisas dariam errado depois, pois nada poderia ser perfeito. E isso virou um ciclo que talvez eu ainda continue presa.

Trágico. E tem pessoas que acham que o abuso é apenas corporal, sexual, mas esquecem de citar sua mente, seu coração e seu espírito. Como se a gente realmente não tivesse nada disso.

O que eu quero dizer com tudo isso é que a maioria de nós não tem a capacidade de entender o que uma vítima sente, passa e qual caminho escolhe para sair da dor. A crueldade é tão forte que... Você não quer mais fazer parte disso. Você quer a liberdade... Custe o que custar. O que você tinha de mais importante já se perdeu. Quem vai te mostrar que existe outra saída?

As vítimas foram acostumadas a dor, pois elas sentem isso todos os dias. Não há nada que faça apagar, não há nada que não faça doer.

Somos acostumados a achar que devemos resolver nossos traumas sozinhos, que copos de cerveja, um pouco mais de dor, remédios para dormir vão afastar o que nos atormenta para ser resolvido. Mas nunca funciona, pois esses traumas voltam, inclusive quando estamos vivendo momentos de felicidade.

E o papel de vocês, que sabem que existimos, de vocês que jogam isso para debaixo do "tapete" como se fosse algo corriqueiro, o papel de vocês é nos ouvir e nos puxar para longe do precipício.

Quando nós nos deparamos com séries como "13 reasons why" ou qualquer outra "ficção" que aborda nossa realidade, a maior parte insiste em não falar sobre isso, não falar sobre o que nos aflige, pois sente vergonha, pois sabe que isso é motivo de fraqueza, mas principalmente de vulnerabilidade.

Eu não estou pedindo aqui que vocês achem normal e entendam que justamente por não serem compreendidas, as vítimas podem e devem recorrer a última instância. Não. O que eu estou dizendo é que não é simples passar por isso sozinho e nós precisamos colaborar para salvar mais pessoas, mostrá-las o caminho. Sempre há um caminho. Um bom caminho.

Será que você conseguem entender?

Todos nós somos vítimas. Não deveríamos ser, mas a nossa visão distorcida da realidade fez com que achar que ter algum problema, ter medo é algo irreal.

Não somos perfeitos se nos olharmos só com um olho, mas se deixarmos os dois bem abertos, somos capazes de ver a perfeição que realmente somos. #13ReasonsWhy #Literatura