Vivemos numa época marcada por profundas tensões em nossas vidas, tanto a nível individual como coletivo. Os horizontes simbólicos que um dia preencheram-nos de sentido com sua luminosidade, hoje em dia não passam de palavras mortas para a maioria de nós, sendo assim, encontrar (ou construir) sentidos que façam a vida valer à pena não é tarefa fácil para ninguém.

Dar sentidos à vida exige acima de tudo uma coragem para se deparar com uma questão sempre aberta, sempre sendo revisitada, reformulada; um vazio profundo que demanda-nos uma resposta, tal qual a esfinge de Tebas (decifra-me ou te devoro) e mostra-nos o reflexo de nossas fragilidades quando nos olhamos em seu espelho.

Publicidade
Publicidade

Ocorre que a vida exige a cada época uma resposta diferente a esta questão aberta, a este vazio; uma atitude diferente diante do mundo bem como de nós mesmos.

Essa breve introdução foi feita para apontar um elo comum que todos temos com aqueles que em algum momento já cogitaram, tentaram ou conseguiram tirar suas próprias vidas: nenhum de nós está inteiramente seguro na existência, nenhum de nós tem a vida dada, garantida.

O fenômeno do desafio da Baleia Azul curiosamente aterrissa em solo brasileiro junto à popularização da série ‘13 Reasons Why’, que trata também da temática do suicídio. Enquanto a série trata de uma sucessão de eventos associados aos personagens que retratam violências, abusos e toda a sorte de fenômenos que levam a protagonista a um esvaziamento e um estreitamento progressivo de seu horizonte criativo de vida em face ao horror e à brutalidade do Real, o desafio da #Baleia Azul tem um caráter um tanto mais oculto e, ao meu ver, tem aspectos simbólicos, inconscientes e irracionais que podem ser explorados: é o que tentarei fazer, breve e humildemente, aqui neste texto.

Publicidade

O desafio da Baleia Azul

Comecemos com um quadro geral da estrutura do desafio: ele ocorre em grupos fechados (sejam de facebook ou whatsapp) e para realizá-lo você tem que tomar uma decisão ”consciente“ de que sabe do que se trata e que deseja realizá-lo até o final (que é o próprio suicídio), correndo o risco, seja real ou pelo menos a nível de ameaça, de perseguição por parte dos administradores do jogo caso não cumpra com o prometido. Os cinquenta desafios envolvem, até onde se sabe, automutilação, adoecimento, assistir filmes “psicodélicos” e de terror, se submeter a situações de vislumbre da própria morte (sentar à beira de uma ponte, subir num telhado alto, etc), se relacionar com outros participantes do jogo (“outras baleias”) e mesmo fazer um voto (desafio 29) de que se é de fato uma Baleia Azul; tudo isso para, no fim, cometer o suicídio.

Esse tipo de dinâmica, absolutamente obscura, sombria e, por parte dos administradores, inteiramente perversa, aponta a um movimento, no ponto de vista do indivíduo que se submete ao desafio, de dissolução do próprio Eu: ele deixa, progressivamente, dia após dia, de ser a si mesmo para se tornar uma Baleia Azul, marcando tal “verdade” em seu corpo e em sua psique através da violência física e imagética a que ele se submete.

Publicidade

Pois não são apenas as mutilações físicas que o violentam, mas as imagens e símbolos que ele assimila a nível tanto consciente como inconsciente são, ao meu ver, fundamentais na condução simbólica desta trajetória obscura nesse processo mortal. Jung (OC. V, §344) dizia o seguinte respeito dos símbolos: eles funcionam como transformadores/condutores da libido, agem de modo sugestivo e convincente e, dado que são expressão do arquétipo em forma de imagem, o valor ou peso da imagem na compreensão de todo tipo de fenômeno psicológico se torna nítido.

Ora, a adolescência (a quem esse tipo de desafio tem atingido) é uma fase altamente perigosa em termos da estrutura da personalidade: o Eu está se consolidando ainda, se distanciando da imagem que tinha de si vinda exclusivamente de fora (de quem os pais acham que ele é, que a família gostaria que ele fosse, etc) e construindo sua própria identidade, tecendo através da aventura da descoberta os próprios limites, descobrindo os próprios gostos, desgostos, medos, amores, etc. O perigo de dissolução e ruptura é sempre uma realidade na adolescência, independente de jogos, desafios ou quaisquer outros fatores externos. A estrutura ainda dependente e em boa parte infantil da vida do adolescente cria vazios e longos períodos de ócio em sua rotina diária que fazem com que ele possa se deparar consigo mesmo e com o mundo de uma maneira certamente assustadora, e nunca temos total certeza do que pode ou não acontecer, é um período de muita instabilidade. No entanto, lembremos: nunca estamos totalmente seguros na vida.

A baleia azul já em sua própria denominação traz uma imagem daquilo de que se trata. A baleia é figura conhecida nas histórias mitológicas de alguns povos; na nossa tradição ocidental ela aparece de forma mais popular, por exemplo, no livro de Jonas na Bíblia, na história infantil de Pinóquio e na grandiosa obra Moby Dick, de Herman Melville. Daqui em diante, então, farei o percurso de me ocupar (tentarei ser breve) da história de Jonas para utilizá-la como pano de fundo arquetípico e tentar lançar um pouco de luz sobre a face simbólica do desafio da baleia azul.

O Mito de Jonas

Resumidamente, a história de Jonas é a seguinte: Jonas não é nenhuma figura poderosa, mas um homem qualquer à quem Javé (Deus), em certo momento dirige a palavra. Diz Javé à Jonas: “Levante-se e vá à Nínive, a grande cidade, e anuncie aí que a maldade dela chegou até mim”. Jonas então foge de Javé e se esconde num barco que iria rumo à uma outra cidade. No meio da viagem Javé envia uma tempestade violenta e o barco fica no limite de naufragar. Eles fazem de tudo pra estabilizar a situação do barco e nada, a tempestade continua atacando violentamente o barco. Enquanto isso Jonas dormia tranquilamente no porão do barco, mas logo é acordado pelo capitão do navio, que tava p*** da vida com o fato dele estar dormindo enquanto o mundo se acabava. Eventualmente, descobre-se que o culpado da tempestade era Jonas, que confessa estar fugindo de Javé, desobedecendo-o. Essa era a causa da tormenta: a desobediência ao imperativo divino.

O mar ia ficando cada vez mais agitado, alguma solução deveria ser tomada, tendo em vista que nada surtia efeito e todos iriam morrer ali. Então o próprio Jonas diz: “É só vocês me pegarem e me atirarem ao mar, que ele se acalmará em volta de vocês”. Jonas, consciente de sua culpa, escolhe ser o sacrifício, para que a paz se restaure ali no mar e os homens sejam salvos. Como resultado disso, os homens ali no barco passam a temer a Javé, oferecendo-lhe sacrifícios e fazendo votos, e Jonas ao ser atirado ao mar é engolido por uma baleia (ou um peixe grande, o que aqui tem absolutamente o mesmo sentido), ficando em seu ventre durante três dias e três noites.

No ventre da baleia, Jonas dirige à Javé uma longa oração (que você pode conferir na íntegra aqui: http://bit.ly/2o4EIGv) que expressa sua situação, seu arrependimento, sua descida ao “fundo do poço” em sua vida e como Javé foi quem o retirou desta situação, concluindo a oração com a afirmação de que “A salvação pertence a Javé”. Logo após isso o peixe vomita Jonas em terra firme e o ciclo recomeça. Javé dirige a palavra à Jonas novamente com mais uma ordem: “Levante-se e vá a Nínive, a grande cidade, e anuncie-lhe o que vou dizer a você”. O anúncio era de que em quarenta dias Nínive estaria destruída.

Jonas vai até a cidade, anuncia a destruição iminente e simplesmente toda a cidade se transforma radicalmente, a partir do temor diante da profecia, mudando seus hábitos, que estavam “errados”, de acordo com Javé. Por isso, Javé, misericordioso, perdoa a cidade e nada lhes ocorre, o que deixa Jonas p*** da vida. Pois Jonas havia fugido no início justamente por pensar que Javé o perdoaria por essa desobediência, por Javé ser “lento para a ira”, compassivo, clemente, cheio de amor, etc. Então Jonas reza pedindo que Javé tire sua vida. Ele pensa, com raiva, que seria melhor morrer do que viver aquela vida sob o domínio de um Deus que perdoa uma cidade mas não perdoa a desobediência pequena de um homem. Daí ocorrem mais alguns eventos e a história termina sem nenhum desfecho dramático tampouco um final feliz bem resolvido, mas simplesmente com Jonas, mimado que só, com raiva pedindo a morte.

Reflexões finais: sobre o mito e o desafio

O que Jonas nos fala da adolescência e da dinâmica da baleia azul?

Aproximando a baleia azul da situação de Jonas, o momento em que o adolescente escolhe participar do jogo é bastante análogo ao momento em que Jonas é atirado ao mar. A partir do início do desafio inicia-se a digestão da grande baleia azul e a dissolução do indivíduo. Enquanto Jonas encontra a redenção e força em Javé, na nossa caótica “pós-modernidade” do século XXI os adolescentes geralmente permanecem com um vazio “difícil de engolir” e um horizonte com pouca perspectiva de futuro ou sentido em suas vidas.

Nessa história bíblica Jonas é o ego adolescente por excelência. Incapaz de se submeter às exigências da realidade (a ordem da Javé) Jonas opta pela fuga, reação típica frente às adversidades (a outra possibilidade seria a luta), mas paga quase com sua vida por essa escolha. Ao se recusar o chamado ao crescimento e se rebelar inocentemente frente à uma instância infinitamente mais potente (Javé, no mito, ou o Real, na vida), a outra opção que se descortina é a morte lenta pela grande baleia. À medida em que se recusa a caminhar para o futuro, a única opção é o regresso ao passado, à não-vida, ao ventre que se torna túmulo e por fim deságua-nos histórias de vida em lágrimas de tristeza, em tragédia.

Jonas se arrepende e por isso é salvo. Sua consciência deixa de recusar Javé e se aliança ao mesmo, afinal de contas já que ele é onipresente, onipotente e onisciente, não há como escapar mesmo; toda fuga é sempre ilusória. Jonas no entanto não aprende a lição e volta a negar Javé rezando pedindo a morte, postura inteiramente infantil, mimada e irresponsável.

O adolescente que aprende a jogar junto com as intempéries da realidade e a suportar as adversidades consegue atravessar a ponte até a vida adulta, mas aquele que se encontra em muitas dificuldades pra realizar este trajeto pode se tornar uma fácil presa da baleia azul, caso não encontre suporte afetivo e profissional suficientemente bons.

Num mundo que carece de sentido, onde as relações tem cada vez menos gosto e a presença do outro cada vez mais ausente; se está certo que Deus morreu no colo de Nietzsche e somos abusados e violentados por nosso próprio governo a cada dia de nossas vidas, o que faz a vida valer à pena? #psicologia #13ReasonsWhy