Uma das maiores dificuldades em se pesquisar a respeito da violência contra mulheres lésbicas e bissexuais no Brasil está na falta de dados e de estudos oficiais sobre o tema. O pouquíssimo material produzido é sintomático de uma invisibilidade que precisa, urgentemente, ser combatida.

A opressão sofrida por mulheres lésbicas e bissexuais é fruto não apenas da discriminação contra a homossexualidade, mas também de uma sociedade ainda patriarcal e machista, para a qual a sexualidade feminina só existe a partir da sexualidade masculina dominante. O resultado é uma persistente fetichização e objetificação dessas pessoas em relacionamentos homoafetivos, como se um casal de mulheres fosse incapaz de se satisfazer sem o "elemento fálico".

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Um exemplo claro desse pensamento machista pode ser visto nos comentários de notícias como a de Bruna Linzmeyer que, para beijar a namorada na praia sem ser incomodada por fotógrafos, usou uma canga para se cobrir. Além da invasão de privacidade já costumeira por parte da mídia, as "opiniões" sobre o casal demonstram como lésbicas são vistas a partir da fetichização e as falas mais comuns são que "falta homem", que "só querem aparecer" e expressões chulas em geral.

A diminuição e/ou negação da sexualidade da #Mulher também se revela na falta de políticas públicas voltadas especificamente para lésbicas, incluindo informações sobre DSTs e práticas sexuais seguras. Ademais, há uma necessidade de se tratar do chamado "estupro corretivo", ameaça com a qual lésbicas que se assumem são obrigadas a conviver diariamente - violência que faz parte também da realidade de homens transgêneros.

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De acordo com uma reportagem exibida pelo SBT em agosto de 2015, o Hospital Pérola Byington, especializado em atendimento a mulheres que foram vítimas de violência, registra pelo menos um caso de estupro corretivo por mês. Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do ABC estima que 18% das mulheres lésbicas, bissexuais ou dos homens transgêneros já sofreram ou devem sofrer violência sexual ao longa da vida, estatística significativamente maior que a de mulheres heterossexuais (cuja chance de ser estuprada é de 12%).

É ainda recorrente que os abusos sexuais ocorram por parte de indivíduos próximos (inclusive parentes) e, principalmente, de ex-parceiros, após a descoberta da homossexualidade ou da bissexualidade da mulher. Soma-se a esse problema a rejeição da família que, por vezes, apoia a ideia do estupro corretivo como forma de "transformar" a mulher em heterossexual.

Se a mulher já sente vergonha de denunciar o estupro devido à falta de confiança nas autoridades e ao medo de ser julgada, mesmo sendo vítima, no caso de lésbicas essa vergonha é ainda maior.

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Além de haver subnotificação, muitas preferem não revelar sua orientação sexual e os crimes são registrados com motivações outras que não a #lesbofobia. A maior parte das vítimas são jovens que têm entre 16 e 23 anos e esse crime leva a outra quadro estarrecedor: são muitas as mulheres que acabam contraindo o vírus HIV por meio dessa prática brutal.

Para homens transexuais, o descaso e a transfobia institucional se mostram como empecilhos adicionais para a não notificação quando sofrem estupro - uma vez que, até mesmo dentro de grupos LGBTs, são frequentemente tratados como lésbicas masculinizadas.

Segundo a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), em pesquisa realizada entre os anos de 2012 e 2014, 9% das mulheres que acessam o Disque 100, serviço do governo federal para denúncia de violação dos Direitos Humanos, são lésbicas.

A desinformação leva ainda a uma subnotificação de agressões domésticas, em que a algoz é a própria companheira. Poucas mulheres sabem, mas a Lei Maria da Penha também se aplica a casais lésbicos. Em 2013, por exemplo, a Central de Atendimento à Mulher (o Ligue 180) registrou que apenas 1% das denúncias recebidas correspondem a casais homoafetivos. #LGBT