No dia 26 de maio, estreou, na 5ª Mostra de #Teatro Tiradentes em Cena, a peça T.R.A.N.S. (Terapia de Relacionamentos Amorosos Neuróticos Sexuais), que tem no elenco Andressa Ferreira (Jéssica), Carlos Verahnnay (Gustavo) e Thammy Miranda (Rafael).

Rafael é um surfista carioca estereotipado que vive um relacionamento com a estudante de psicologia Jéssica, a qual, entre trocas de lingerie e roupas esvoaçantes, procura brechas para aconselhá-lo a buscar soluções para seus problemas com a ninfomania e com o machismo nas sessões de psicanálise com uma psicanalista que não existe na cena. Gustavo é um advogado mineiro, também estereotipado, que vai passar um tempo na casa de Rafael para continuar os estudos em Filosofia, sua grande paixão.

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A trama se desenrola entre a irresponsabilidade de Rafael com sua vida e as constantes tentativas de Jéssica para que ele melhore como companheiro, vendo-se dividida entre o apelo sexual do relacionamento que vive e a sensibilidade encontrada no estudante de Filosofia e amigo da família de Rafael, Gustavo.

O roteiro bastante clichê busca na popularidade de Thammy Miranda a lotação dos teatros. O filho de Gretchen passou pelo processo transexualizador publicamente, o que contribuiu para a pauta de discussões sobre direitos das pessoas Transsexuais e Transgêneras.

No entanto, a popularidade do novo ator não promete segurar o público. É que a pauta da #Representatividade é bastante urgente, assim como o debate sobre as identidades de gênero e as sexualidades e a peça ainda gira em torno de categorizações machistas, subserviência da mulher, piadas homofóbicas e uma inserção da temática trans desconectada da realidade e forçadamente interpretada pelo ator cisgênero.

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A Filosofia ainda é mantida em citações datadas e desconexas como “Só sei que nada sei”, de Sócrates, e uma variação de Simone de Beauvoir, dizendo que “Não se nasce homem, torna-se”.

Em debate sobre Teatro e Cultura Trans, ocorrido na Cena Encontro da mesma Mostra, ficou nítido o descompasso entre o que o diretor/ator Carlos, a atriz Andressa e o ator Thammy pensam sobre a peça e o que ela realmente comunica. O debate contou com a presença de Alexandre Lino (ator da peça Lady Christiny), Carol Braga (Culturadoria), Thammy Miranda, Rogéria Gomes (crítica de teatro) e Vinícius de Carvalho (Mestrando em Educação e Ativista LGBT+) e problematizou questões como responsabilidades político-sociais, processos de des-construção e representatividades.

Os automatismos superficiais da filosofia surgem como um apelo que fica perdido em si e na bagagem do estudante Gustavo. Thammy Miranda optou por viver um personagem cisgênero e cai na armadilha da reprodução do machismo e do binarismo excludente de gênero, reforçando o local da mulher como submissa e objeto do homem insaciável.

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A personagem de Andressa apela notavelmente para a utilização do corpo mercadoria e possui poucas inserções interessantes, ficando à mercê do desejo dos dois homens. Os dois momentos interessantes da peça são quando Rafael fala sobre “a filha da Gretchen que virou homem”, utilizando o Queer como potência e quando Jéssica solta o famoso “Aceita que dói menos” sobre o preconceito de Rafael.

Entre as piadas homofóbicas que revalidam o local do homossexual em sociedade como o veado que merece o deboche e a reafirmação do machismo com gritos e apelo ao sexo, a peça ainda precisa de um bom transdiálogo com a contemporaneidade. A representatividade esperada no teatro, pelo menos nessa peça, necessita de maiores inflexões com o nosso contexto social. Afinal de contas, é preciso que sejam servidos ao público novos locais de empoderamento e enfrentamento às opressões. Rir de comédias requentadas pode até possibilitar o divertimento momentâneo de algumas pessoas, mas não contribuirá para as aprendizagens mais necessárias. #Transgênero