Pelo WhatsApp, milhares de pessoas receberam o vídeo de um suposto assaltante tendo a inscrição "Sou ladrão e vacilão" tatuada em sua testa por um tatuador de São Bernardo do Campo.

Antes da imagem do menor sendo torturado viralizar nas redes sociais ele estava desaparecido, sendo procurado por sua família: portador de problemas mentais comprovados e usuário de drogas, ele passa por tratamento e acompanhamento no CAPs da cidade do ABC paulista.

Em caso parecido de "justiça com as próprias mãos" teve menos sorte a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, em tratamento por distúrbios bipolares e mãe de duas meninas; uma de 12 e outra de apenas um ano.

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Ela morreu na manhã do dia 5 de maio de 2014, dois dias depois de ter sido espancada por dezenas de moradores do bairro Morrinhos, periferia do Guarujá, litoral sul de São Paulo, por conta de boato gerado pela página Guarujá Alerta, do Facebook, dia 25 de abril, que afirmava que Fabiane sequestrava crianças que eram mortas em rituais de magia negra. Sua foto foi confundida com a de um retrato falado da suposta sequestradora.

Quatro dias depois, no dia 29, a página Guarujá Alerta divulgou um texto que revelava que tudo não passava de boato e que não havia nenhuma sequestradora de crianças na cidade​. Logo no início, a postagem afirmava que muitos seguidores não iam ler o comunicado até o fim, mas advertia que deveriam fazê-lo para que as pessoas não continuassem a espalhar a mentira de forma irresponsável.

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A redação dizia, ainda, que não havia nenhum boletim de ocorrência registrado denunciando que alguma criança estava sequestrada no Guarujá, além de expor três links contraditórios sobre a mesma notícia. Mas o desmentido caiu em desconsideração e os avisos e confirmações de que havia, sim, uma criminosa à solta não pararam de pipocar no Facebook. Assim, Fabiane acabou pagando a conta após ser "reconhecida" em um bar no bairro como sendo a tal sequestradora​.

No Brasil, quatro linchamentos, ou tentativas, acontecem a cada dia.

Mas a morte de Fabiane acabou ganhando grande repercussão, pois todos os jornais impressos noticiaram a brutalidade a que foi vítima a dona de casa. Seu sepultamento foi amplamente coberto e o programa "Fantástico", da Rede Globo, exibiu longa reportagem sobre o fato no domingo seguinte. O choque nacional se devia à agressividade do linchamento, exposta cruamente nas imagens de smartphones e ao equívoco que levou a multidão a linchar a “pessoa errada”. Se tivessem agredido a “pessoa certa”, talvez o fato tivesse caído no mesmo silêncio que acoberta a grande maioria dos casos de linchamentos que acontecem pelo Brasil.

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A atitude em volta da ação de buscar a justiça com as próprias mãos é um sintoma de desagregação social, mas está relacionada, diretamente, apenas a pessoas desordeiras. Gente de bem, pais de família e trabalhadores também acabam se envolvendo em casos como o da dona de casa e do tatuador em virtude do anseio por ordem e segurança, deveres que deveriam ser observados pelo poder público mas que, obviamente, não são. Daí, desesperada e desacreditada nas instituições, a população acaba tomando para si a "obrigação" de punir conforme suas preferências e, quase sempre, acaba cometendo injustiças e atos covardes.

Dessa vez dois homens tomaram um menor de 17 anos, e com problemas mentais, e lhe torturaram com a tatuagem em sua testa como forma de punição por ele, supostamente, ter tentado roubar uma bicicleta.

Agora, presos, terão muitas peles de bandidos de ofício para ser tatuadas.

E o garoto? Sua angústia cairá no esquecimento ou o poder público tomará suas dores para lhe proporcionar um tratamento digno, uma nova chance e uma cirurgia plástica que apague a insanidade que fora cometida contra si? Vamos aguardar uma atitude e a próxima vítima a ser linchada. #injustiça #Crime #Violência