"#Mulher-Maravilha" foi uma daquelas estreias aguardadíssimas, não só por ser um blockbuster de super-heróis dos quadrinhos (HQs), mas também devido a sua temática de fundo, o empoderamento feminino.

A mulher, para todos os efeitos, implícita ou explicitamente, ainda é alvo de discriminação e opressão por parte da sociedade de cultura essencialmente machista. A consequência é que praticamente em todos os setores, não só no profissional e no comportamental, a missão perene da mulher é provar que pode.

"Mulher-Maravilha", a nova mulher

A Mulher-Maravilha, personagem das revistas em quadrinhos, criado por William Marston, em 1941, chega em hora oportuna.

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Embora o objetivo principal do personagem seja entreter, as suas características originais têm relação direta com a afirmação e defesa dos direitos das mulheres.

A Mulher-Maravilha foi inspirada pelas ideias que deram origem ao movimento feminista, como a equidade de gênero e a conquista dos direitos políticos, nos ensina Jill Lepore, historiadora da Universidade de Harvard. Forte e independente, a figura era a favor da paz, lutava pelos trabalhadores em greve e contra a dominação das mulheres pelos maridos.

Uma cena clássica das HQs trazia um namorado dela perguntando: "Anjo, quando é que vamos nos casar?" Ao que ela responde: “Apenas quando o mal e a injustiça desaparecerem da Terra”. Pelo jeito, ela terá trabalho por um bom tempo ainda.

A caracterização do personagem, uma mulher de roupa justa, jovem, magra e sensual, fez com que as feministas radicais, no final do ano passado, pedissem a retirada da Mulher-Maravilha da indicação para Embaixadora Honorária da ONU pelos direitos femininos.

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A personagem acabaria por propagandear o que se buscava prevenir: a violência contra a mulher. A boa intenção dessa reação foi questionada por outros setores não só feministas, que atribuíram todo o barulho das radicais a um certo recalque, como se toda mulher para ser levada a sério tivesse de prescindir ou esconder a sua beleza.

Diana (o nome original da personagem) levou quase 76 anos para conquistar poder no mercado. A culpa pela demora? Os dirigentes masculinos da indústria do cinema nunca confiaram que um filme protagonizado por uma super-heroína vendesse!

A grande guerra: femininas x machistas

Elas passaram a dirigir seus automóveis, votaram, conseguiram cargos de comando, obtiveram o poder de decidir se vão casar, ter filhos e quando se separar. Isso as equalizaria aos homens. Mas na realidade não foi e não é bem assim. Há um ressentimento silencioso do lado oposto que volta e meia surge. E vem seja por meio de um comentário humilhante e desqualificador seja por meio de agressão física ou sexual.

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A mulher não é respeitada nem como gênero nem como indivíduo socialmente ativo.

Na Suécia, país que sempre aparece nos primeiros lugares nos índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o salário da mulher é menor que o do homem, principalmente no setor privado.

Social e culturalmente, a mulher ainda é vista como uma acompanhante de luxo e um objeto de desejo. O discurso religioso tradicional, por mais que se tenha amenizado, não reabilitou as mulheres da sua subestimação histórica. Em contextos extremos, elas ainda são dadas em casamento e, em ambientes mais abertos, o flerte e a paquera por parte delas ainda é mal visto.

Na propaganda, é o capital erótico delas que chama a atenção. Nos comerciais de carros, bebidas e produtos em geral, a mulher é aquela a quem o homem pretende agradar ou seduzir com o seu poder material. Nas feiras de automóveis, são elas os atrativos estratégicos para os carros.

Na televisão, os programas seguem a velha fórmula de ladear o apresentador homem de beldades seminuas na função de encantar e hipnotizar os telespectadores. Evidente demais para se notar.

O #machismo está tão profundamente entranhado na consciência coletiva, que as próprias mulheres se depreciam mutuamente quanto aos seus papéis sociais.

A mulher não quer se tornar um homem mais perfumado e de pele mais macia. Se assim parece, é a simples reação extremada à opressão que sofreram por milênios cuja consciência aflorou recentemente.

Desafios a superar

Resistir e imposição são palavras de ordem. Todos os direitos adquiridos foram só o primeiro passo de um processo muito maior de construção de identidade e de espaço. O aborto, por exemplo. A questão nem é a vida do bebê, o que se combate mesmo é a prática abortiva, pois isso daria à mulher a posse do seu corpo.

A violência física contra a mulher continua sendo a expressão mais gritante do domínio machista. Esses dias, um jogador de tênis do torneio de Roland Garros apareceu na TV assediando fisicamente a jornalista Maly Thomas que, ao vivo, tentava entrevistá-lo. Ataques semelhantes acontecem o tempo inteiro. A mulher, para manter o seu espaço, tem de lutar e se provar todo dia.

A mulher pode ser bonita, sedutora e simpática sem que isso tenha de servir de parâmetro mensurador das suas capacidades intelectuais ou de liderança. Ser feminina e ser feminista não precisam ser coisas diferentes, mas a distinção se faz necessária devido à distorção feita por alguns setores mais radicais que não sabem ponderar as verdadeiras questões em pauta.

"Mulher-Maravilha", como o público e a crítica especializada já vem destacando, convence como aventura e entretenimento, mas também como ícone representativo do poder feminino. A princesa Diana inspira e é inspirada pelos seus companheiros de missão. Ela destoa deles na forma de ver a situação, mas traz uma nova forma de olhar para o conflito que todos estão enfrentando. Sua sensibilidade ingênua a leva a atitudes que viram o jogo na hora mais sinistra e empodera a todos como ninguém fizera antes.

Diana é uma mulher que precisa e consegue provar o seu poder e faz isso encantadoramente. No ápice do desespero, ao testemunhar a harmonia e comprometimento incondicional dos seus companheiros até o último segundo, ela assume a sua grandiosa identidade definitivamente. Metáforas por toda parte de como deveria ser a interação homem e mulher no mundo real.

Que o sucesso da princesa amazona estabeleça uma nova era de mais poder ao movimento de resistência das mulheres. Sim, pelo menos no mundo da ficção e das HQs o empoderamento feminino é real e crescente. Que a vida imite a arte e todas uma dia se tornem reconhecidamente Mulheres-Maravilha.