A paixão que arde entre uma Capuleto e um Montecchio é a mais glorificada e romantizada dor da morte. A impossibilidade de viver um amor torna-se um fardo impossível de suportar e, paradoxalmente, o possível torna-se desejável pela facilidade de ser conquistado: o #Suicídio. O clássico shakesperiano transforma um problema de saúde pública em obra literária de prestígio mundial.

A priori, nota-se uma suavização do tema tratado pelo escritor inglês, William Shakespeare. Mas a capacidade de pôr um fim a própria vida, não é algo banal e, possivelmente, é o maior tabu que a sociedade líquida, termo criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, enfrenta hoje.

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Marcada pela fragilidade e estreitamento das relações pessoais, há uma constante mudança de tudo que nos cerca no mundo, e a sensação de instabilidade ultrapassa o real e atinge o psicológico.

Não obstante, a redoma perceptível do ego que nos envolve dificulta a assimilação de um grito ínfimo, silencioso, daqueles que imploram por uma atenção praticada, não assistida. Inúmeras razões são precursoras do suicídio e as causas não devem ser categorizadas por nível de sofrimento: o maior erro da liquidez social. O sentimento é imensurável para cada ser. Logo, nota-se um processo de desumanização do próprio homem no momento no qual é dito quando e quanto se pode sofrer, julgam se é algo digno de sofrimento. Em seguida, percebe-se uma disputa pelo holofote da dor: comparações de quem está mais triste, mais aflito, de quem é o maior martírio...

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E o resto? É vitimização. Uma verdadeira ironia.

Ainda, há uma restrição da própria #Liberdade do ser humano até no seu sentir. Criando, assim, uma analogia direta com uma poesia de Drummond, poeta brasileiro: "O pássaro é livre na prisão do ar". A geração de uma indeterminação do próprio ser, e sua solução, leva ao próximo verso. O verso final. Touché: "Mas livre, bem livre mesmo, é estar morto".

Em contrapartida, forma-se uma sociedade de filósofos céticos diante dos casos de suicídio: aqueles que se limitam a observar com indiferença total. Estão atentos ao que acontece ao seu redor, mas não dão conta da realidade para estender a mão como ajuda àqueles que mais precisam. Ainda, do mesmo menosprezo que surge a falta de #empatia pelos que estão ao seu redor, surge o "comentarista contemporâneo obrigatório". Não demora a surgir "pérolas" e opiniões especulativas e errôneas em como suicidas são fracos, desumanizando um sério problema social e desincentivando possíveis pedidos de ajuda, de suplício. Exemplos, infelizmente não faltam, como no caso da menina Thalia.

Deriva-se, desse contexto cético, o Epokhé, do grego: suspensão do juízo, do valor ético, dos que são adeptos da filosofia moderna do "deixa rolar". Deixando à própria sorte, os que consideram a morte como refúgio, uma salvação, a solidificação real da liquidez de Bauman.