Para além de qualquer investigação sobre tráfico de #cocaína e bens de políticos, paira uma questão: Por quais interesses parlamentares como #Blairo Maggi e Zezé Perrela trabalham?

Ambos são réus de investigações desse tipo, é claro. Mas vou me ater a outra questão que eles têm em comum, porém pouco comentada nas grandes mídias: Eles são proprietários de dois gigantes grupos alimentícios.

Blairo Maggi é atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Já foi considerado o maior produtor individual de soja do mundo e é proprietário do grupo Amaggi; também já foi eleito governador do Mato Grosso. Zezé Perrela, atual senador da República, é proprietário do grupo Limeira Agropecuária.

Publicidade
Publicidade

O povo brasileiro não é nem de longe composto majoritariamente por grandes ruralistas. Torna-se curioso, então, o fato de políticos como eles receberem tantos votos a ponto de se elegerem nossos representantes.

Mas Blairo Maggi e Zezé Perella não representam parte da sociedade?

Talvez a relação entre a origem desses políticos e o lugar de poder que ocupam pudesse ser ignorada, não fossem os dados do site Congresso em Foco sobre as bancadas mais poderosas do parlamento. Representantes do setor agropecuário compõem uma das bancadas mais fortes e numerosas, cujas pautas de reuniões semanais divulgadas para imprensa versam sobre questões de interesse do setor.

Entre as bancadas mais poderosas, em conjunto com a bancada ruralista composta por 207 deputados, está a bancada empresarial, composta por 208; e a das empreiteiras e construtoras, com 226 parlamentares.

Publicidade

Esses dados importam, pois é no Legislativo que as leis e a fiscalização do Executivo vão estar em debate. Ou teoricamente deveriam, em defesa dos interesses da maioria dos brasileiros.

Tradicionalmente, se acredita que o problema da política esteja nos políticos tirando dinheiro público dos impostos e colocando diretamente em suas contas pessoais. Como se o problema permanecesse na dimensão individual do político. Por isso, muitos acreditam que só há desonestos na política e que todos roubam para si.

Porém, essa visão é uma simplificação, visto que a ação conjunta por interesses comuns de setores da sociedade fica de fora da análise. A problemática das prioridades de discussões, posicionamentos e votações se relaciona diretamente com a origem social dos nossos "representantes" e com quem eles partilham seus interesses.

Mesmo quando de acordo com as leis, o papel do Legislativo é cumprido principalmente em prol do empresariado, dos ruralistas e dos empreiteiros.

E o que explicaria essa composição do parlamento, sendo que é o próprio povo que o elege?

Por que o brasileiro em geral elege quem age por interesses tão diversos da maioria?

Uma das explicações poderia ser exatamente o poder dos investimentos de campanha, feitos pelas próprias empresas em quantias absurdas.

Publicidade

O que permite mais aparições, mais propaganda, mais influência etc. Outra explicação é o próprio poder advindo da popularidade dessas pessoas em sua região.

Além disso, no imaginário de parte da população, o empresariado ou ruralistas são homens de sucesso, que movem o país e geram empregos. É raro que relacionem a composição do Congresso com os casos de #Corrupção. Quase nunca lembram que são eles os beneficiários finais dos contratos arranjados à base de propina.

Isso explica porque uma revista de grande circulação como a Exame se sentiu a vontade para colocar em sua capa um empresário envolvido em esquemas de corrupção, que delatou políticos na Operação Lava Jato, tratando-o como campeão nacional.

Quanto aos casos relacionados com meia tonelada de cocaína supostamente em propriedades dos personagens citados, estão em processo de investigação. Esperamos os resultados, torcendo para que o poder econômico desses e de seus aliados não cause interferência.