Na vida, quando as coisas não dão certo, a gente cria, renova ou improvisa. O ideal é poder criar algo novo. Quando não dá, renovamos o que temos. Quanto ao improviso, bem, improvisamos quando não há alternativa.

Os alunos do Instituto Evangélico Novo Hamburgo (IENH), no Rio Grande do Sul, exageraram. Eles colocaram o dedo na ferida ao romperem com o "politicamente correto". Afinal, profissão não é tudo igual? Todos não reagem igualmente diante de um operário ou perante uma executiva cheirosa de salto alto? Ou será que não é bem assim, e fingimos o tempo todo para que a vida em sociedade não se torne insuportável?

Uma sociedade cínica

Cedo se aprende que mentir é feio.

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Os pequenos devem falar a verdade sempre. Na prática, se lhes demonstra o contrário. A vida em sociedade não funciona baseada na verdade.

O pai pede para o filho dizer ao telefone que ele não está. O filho, tentando se equilibrar nesse mar de duplas mensagens sobre verdade e mentira, ao responder a ligação, dispara "Meu pai mandou dizer que não está!". E todos riem constrangidos ao ouvirem tais histórias.

A sociedade mente de maneira sofisticada. Hipocrisia, mentira, #Educação, são sinônimos. Ser educado é dizer o que todos esperam. É o "politicamente correto".

"Estude para ser alguém na vida"

Já ouviu essa frase? Que tal esta: "o peso da caneta é melhor do que o da enxada"? Todos sabem o que elas significam: não basta trabalhar, é preciso ter valor na sociedade. O operário não é igual o executivo.

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O gari é menos do que o arquiteto. O atendente da empresa é anônimo. Quem decidiu isso? Ninguém. A sociedade é assim.

Pais esclarecidos convencem os filhos do valor dos estudos. Incentivam a aprender inglês e fazer curso superior. O #Trabalho ideal é o que garante realização material e pessoal. Os pais querem ser superados.

Os filhos devem aproveitar as oportunidades por eles oferecidas e deixá-los orgulhosos. O pedreiro e a diarista se esforçam diariamente para pagar a faculdade dos filhos. Por quê? Para que consigam mais do que um "trabalho digno".

"Todo trabalho é digno"

Mentira. As profissões têm valores econômicos, sociais e psicológicos. Salário maior, maior poder aquisitivo. Certas atividades dão status ao indivíduo no mundo das relações. A filha que apresenta um "engenheiro naval" como o seu novo namorado aos pais verá a diferença no semblante deles caso ela o troque por outro que seja um "segurança patrimonial", por exemplo. Psicologicamente é feliz quem faz o que sempre quis fazer.

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São fatos.

A maioria das profissões braçais ou operacionais mais comuns é o retrato da falta de preparo técnico e acadêmico da maioria da população. Quem escolhe ser vendedor, pedreiro, gari, diarista, embora haja exceções? Quem teve como sonho de infância, um dia, catar sacos de lixo, sob sol e chuva, enquanto se dependura num caminhão de coleta? Ninguém estuda, faz MBA, mestrado, doutorado, para trabalhar com algo que as pessoas acham até útil, mas não admiram.

Se tudo der certo, menos hipocrisia

Não é preciso glamourizar os trabalhos operacionais para enaltecer os indivíduos que com alegria os realizam. É dispensável dizer que você trabalhou de auxiliar de pedreiro ou que vendeu doces para pagar a sua faculdade só para valorizar a sua caminhada rumo a uma condição profissional melhor. E veja só: foi um meio para um fim.

Oras, se uma atividade é boa não se quer deixar, mas fazê-la sempre. O engenheiro civil e o pedreiro estão no mesmo canteiro de obras. Às vezes, devido ao cronograma apertado, tomam a mesma quantidade de sol e chuva. Quando a obra, porém, for concluída, é o nome do engenheiro que será mencionado, e será ele, e não o pedreiro, que estará no coquetel na noite de inauguração do empreendimento.

Os alunos talvez não aprenderam que eles devem olhar para o esforço e o compromisso com que esses profissionais mais simples executam as suas atividades e sustentam suas famílias. Talvez os alunos de Novo Hamburgo precisem saber também que eles podem mudar a sociedade, desenvolvendo depois de formados, cada um na sua área, novas tecnologias e processos que substituam as funções "dos que deram errado" por outras que farão com que os filhos daqueles desafortunados "deem certo".

Certas profissões são úteis e indispensáveis? Ainda, sim. Todos concordam também que os próprios filhos devem ser profissionais "dignos", "úteis" e "indispensáveis" sem terem de exercer profissões que serão desvalorizadas.

Desvalorizadas não por alguns jovens mimados, mas por toda uma sociedade que dissimulada e cinicamente trata todas as profissões apontadas pelos meninos gaúchos, como invisíveis, inferiores e desprezíveis. Os meninos do IENH só cometeram um erro: expuseram a hipocrisia da sociedade. Melhor seria que tivessem mentido. Verdades são inconvenientes demais. #estudo