Do norte ao sul do globo ecoam vozes de diferentes espectros. Juntas, elas formam um único cântico selvagem, racista e totalitário, repleto de discursos nacionalistas, de ódio e mentiras que, como mantras, de tanto repetidas em meios de comunicação e redes sociais, acabam se tornando verdades.

Na França, Marine Le Pen, da Front National, chegou ao segundo turno através do discurso anti-imigratório. No Reino Unido, venceu o Brexit, apoiado pelo partido UKIP, na época liderado por Nigel Farage e seus discursos racistas. Na Eslováquia, cresce o número de parlamentares pertencentes ao partido Kotleba, uma mistura de neonazismo com neofascismo.

Publicidade
Publicidade

Nos EUA, Donald Trump, performer principal da pós-verdade, está construindo um muro na fronteira com o México para impedir a imigração. No Brasil, segundo pesquisa da Datafolha de abril deste ano, depois de Lula, Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar na corrida presidencial para 2018.

Nem todos vestem ou vestiram farda. Nem todos pegaram em armas. Nem todos são homens. Mas todos materializam um inimigo ameaçador – geralmente já socialmente oprimido – que deve ser combatido para o bem da nação e “das pessoas de bem”. Hoje eles não carregam sobre o corpo uniformes aos moldes dos generais do golpe brasileiro de 1964, mas todos forjam, com suas bocas, gatilhos de armas de destruição em massa. Porém, essas figuras que encarnam discursos de ódio não se pronunciam a favor de um regime totalitário.

Publicidade

Como todo bom fascista, elas não assumem serem fascistas. Os discursos de ódio, sejam eles implícitos ou explícitos, são lançados à população infinitas vezes. Repetem-se mentiras, forjam-se dados, até que o ódio se instala entre o povo contra um grupo de bodes expiatórios.

Ódio, ilegalidade e a cadela no cio

Em todo o mundo parece existir uma sincronia entre essa profusão de vozes saídas dos subterrâneos do fascismo e a escalada de crimes de ódio e de ilegalidades praticadas e apoiadas pelo Estado contra as minorias. Segundo o jornal The New York Times, o Brasil é o país mais perigoso para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros: nos últimos 4 anos e meio, foi assassinado um LGBT por dia por razões homofóbicas. Mas as minorias atingidas não dizem respeito apenas à orientação sexual ou ao gênero.

Os pobres e negros habitantes das periferias brasileiras são todos os dias vítimas de chacinas encabeçadas por milícias policiais. Para se ter uma ideia, no Brasil, o jovem negro tem 2,5 vezes mais chance de morrer do que o jovem branco, conforme divulgado em 2015 pela Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República.

Publicidade

O sistema prisional e a Justiça brasileira também são manifestações das ilegalidades do Estado contra as minorias, algo que se configura como uma verdadeira limpeza étnico-social, haja vista a criminalização dos movimentos sociais no Brasil e a diferença entre o tratamento dado a Rafael Braga, jovem pobre e negro condenado a 11 anos de prisão por porte de duas garrafas plásticas – uma com água sanitária e outra com desinfetante – durante uma das manifestações das jornadas de junho de 2013, e o tratamento dado ao senador Aécio Neves, gravado em conversa telefônica pedindo R$ 2 milhões a Joesley Baptista, dono da JBS, e dizendo que a pessoa que ele enviaria para pegar o montante deveria ser “alguém que a gente mata ele antes de fazer a delação”. Depois de um mês afastado das atividades parlamentares, Aécio Neves está de volta ao Senado.

Fora do Brasil, a escalada de violência com motivação de ódio pelas minorias também chama atenção: na Chechênia, gays são torturados e mortos em campos de concentração, para onde muitas vezes são enviados por suas próprias famílias. Na França, o jovem Theo, de 22 anos, negro e habitante da periferia parisiense, foi empalado com um cacetete por dois policiais no início deste ano; “descobriu-se”, depois, que existem grupos de policiais que utilizam o empalamento como “método” sistemático nas banlieues parisienses. Na Argentina, o índice de feminicídio é assustador: segundo a organização não-governamental MuMaLá, só nos cinco primeiros meses deste ano já foram assassinadas 133 mulheres.

Esses países possuem constituições históricas, políticas e sociais diferentes; portanto, não se objetiva realizar neste artigo uma comparação entre o fascismo ou os discursos fascistas de diferentes países ou de explicar por que o fascismo tupiniquim deve ser chamado de protofascismo. Não se objetiva tampouco analisar o cenário econômico e social resultante da vitória do capitalismo, que teria levado as pessoas a se tornarem mais vulneráveis aos discursos fascistas. Aqui, objetiva-se apenas lançar luz sobre o processo de acasalamento que gera o fascismo contemporâneo. Que a cadela do fascismo está sempre no cio todo mundo já está cansado de saber e a História está aí para nos contar. Só os próprios fascistas conseguiriam negar essa realidade. Mas como se dá o acasalamento dessa cadela e como ela procria? E o mais importante: quem violenta a cadela?

A linguagem como ferramenta fascista

Comecemos pela palavra, seja ela falada ou escrita. Palavra é ação. Os amantes e artistas de teatro sabem muito bem que a palavra está, ao mesmo tempo, no nível simbólico e no nível da ação. A palavra é performática. Quando nos casamos na igreja, a frase “Eu vos declaro marido e mulher”, verbalizada pelo padre, marca e estabelece uma realidade naquele exato momento. A ação de duas pessoas se tornarem “marido e mulher” torna-se realidade a partir do pronunciamento público. Dentro do processo humano da linguagem, a palavra não significa nada se ela não estiver a serviço da representação de uma realidade, inserida dentro de um determinado contexto, articulada de acordo com a intenção do emissor.

Mas afinal, por que nos referirmos à linguística para falar de Bolsonaros, Le Pens e outras tantas figuras que nos assombram neste mais de um quarto de século? Porque o fascismo só é fascismo se aquilo a que ele se propõe é legitimado. Ou seja, se considerarmos o simbólico como ação e a palavra como sua concretização, a lógica nos diz que o simbólico irá se concretizar na realidade. Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a dimensão simbólica possui papel fundamental na linguagem, pois é através dela que o inconsciente se manifesta e determina o sujeito. É ela a base sólida do pensamento humano, que organiza o psíquico e o inconsciente na dimensão simbólica. A grosso modo, Lacan define o inconsciente como linguagem, que simbolicamente tenta gratificar os desejos do sujeito, que por sua vez se metamorfoseiam a partir da própria linguagem. O discurso fascista age sempre no nível simbólico da violência. Ora, se cada um de nós é uma cadela do fascismo no cio e nos encontramos num período de crise social, econômica ou mesmo em momento de conflitos subjetivos e existenciais, haverá grande possibilidade de sermos invadidos, violentados, fecundados por essas palavras, fala-falo que preenche o desejo de sair da crise. E o simbólico, a palavra fascista, vai sempre querer resolver o problema através da eliminação do outro, tornado agora o inimigo causador dos males sofridos pelas “pessoas de bem”.

O parto da cadela

Entre o momento da fecundação até o parto do fascismo em ação concreta na realidade, o período de gestação pode ser mínimo. Muitos desses partos estão sendo realizados mundo afora, e o terror está batendo à porta dos mais frágeis, à porta das favelas, dos pobres, dos negros. A hoje deputada francesa Marine le Pen coloca nas costas da imigração a culpa pelos ataques terroristas e pela crise econômica francesa. Le Pen não precisa ser eleita e aprovar leis anti-imigração ou mandar a polícia pegar em armas para matar ou torturar imigrantes. Ao tornar públicas declarações em forma de pergunta, como “Você aceitaria que 12 clandestinos venham se instalar no seu apartamento e que, além disso, eles mudem o papel de parede e que alguns deles violentem sua mulher e o roubem?”, ela está automaticamente expulsando e assassinando imigrantes.

O mesmo se dá com o discurso do brasileiro da nossa extrema-direita, Jair Bolsonaro, que a grosso modo pode ser resumido em “bandido bom é bandido morto”. Agora, a palavra proferida pelo projeto de Hitler verde-amarelo legitima o massacre de pobres e negros da periferia que antes já acontecia sistematicamente. Bolsonaro não apenas utiliza seu discurso para o massacre coletivo de "bandidos". Ele também defende a tortura de políticos de esquerda e se declara abertamente misógino e machista. Em seu pronunciamento durante a votação da ex-presidenta Dilma Roussef, Bolsonaro enaltece o coronel que a torturou nos porões da ditadura militar brasileira, dizendo "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff". Ao pronunciar tais palavras dentro da Câmara, Bolsonaro reedita a tortura de Dilma, tortura-a novamente, debocha dela, exibe seu corpo nu marcado pelos instrumentos do general como se esse corpo em frangalhos fosse seu troféu ou o troféu de todos os brasileiros.

O fascismo não diz respeito somente a chacinas e campos de concentração. Ele não diz respeito apenas à realidade. Ele é a legitimação da eliminação daquele que, por algum motivo, possa representar um perigo ao fascista ou àqueles que estão prontos para serem fecundados pelas palavras do fascista, semeadas tanto nos meios de comunicação tradicionais como nas bolhas de ódio que podemos encontrar nas redes sociais. O mesmo ocorre com as piadas de alguns humoristas brasileiros que, em vez de colocarem o foco do riso sobre opressor, colocam-no sobre o oprimido, de forma que este se mantenha sempre na posição de submisso para que não haja a mínima possibilidade de algum dia nos transformarmos nele.

Pela palavra, legitimamos a divisão do mundo entre "nós" e "eles" para negarmos a realidade de que podemos ser nós e eles no mesmo espaço e ao mesmo tempo. O cio da cadela do fascismo existe num mundo sem contradição. O discurso de ódio leva a cadela ao parto espontâneo do terror, causado pelas ações de limpeza étnico-social realizadas pela polícia, pelo pesadelo do encarceramento em massa, pela selvageria dos linchamentos públicos, pela injustiça das prisões arbitrárias e seletivas e pela criminalização dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda. #Política #psicologia #LGBT