Não é de hoje que as redes de #Cinema tentam aumentar a margem de lucro empurrando ao consumidor sessões de filmes portando, supostamente, tecnologia 3D. A novidade incide, no entanto, nas últimas semanas, na capital paulista (se for o caso na sua cidade também, seu relato será bem vindo), na quebra total do pudor, do abandono da fração mínima de discrição que mantinha preservada um restolho de decência, ao impor aos usuários que quisessem prestigiar uma das obras audiovisuais exibidas a sessão 3D como única alternativa. Pude testemunhar essa prática oportunista ao conferir a programação referente aos dois últimos blockbusters lançados este ano: Mulher-Maravilha e Homem Aranha: De Volta ao Lar.

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Na primeira semana de exibição, não houve escapatória: todas as sessões estavam em 3D. (Caso tenha passado uma despercebida nos shoppings Anália Franco, Metrô Santa Cruz e outros na Zona Leste, por favor, me corrijam e já antecipo desculpas pelo que direi aqui, mas se meu olhar humano não me traiu dessa vez, mantenho minhas colocações). Somente na segunda semana, surgiram em saletas acanhadas e horários solitários exibições no formato tradicional (até onde pude conferir no shopping Santa Cruz e regiões ermas para a maioria da população como na Frei Caneca).

Pelo visto, a estratégia daqui para frente será esta: arrancar um vintém a mais do público mais ansioso ou desinformado na semana de lançamento e tentar absorver a demanda dos eventuais descontentes ou impossibilitados, de forma gradual, no decorrer dos meses.

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Daí poderá se arrazoar: “Como detentoras dos direitos de exibição, as redes de cinema têm o direito de escolher o modelo de comercialização de seus produtos na forma que melhor atender as suas expectativas. Ninguém está sendo forçado a assistir o que não quer ou a pagar o que não acha justo. A escolha continua nas mãos do consumidor”.

É verdade.

Contudo, nada impede que se possa fazer uma análise sobre esse “modelo de comercialização” no intuito de discernir se ambos os lados, prestadoras de serviços e usuários, estão ganhando com a situação imperante e nisso definir se é digno de aplausos ou de vaias.

Afinal, se apenas uma das partes se sai plenamente realizada de uma transação de prestação de serviço, ocorre uma desigualdade, uma injustiça, um abuso.

A consequência mais natural, por parte do consumidor, seria a de boicotar a prestadora e usufruir dos serviços dos concorrentes. Porém, neste caso, tal lógica é inaplicável porque os gigantes que dominam o setor estão alinhados em torno dessa estratégia mercadológica.

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Ou seja, em caso de clientela prejudicada, resta apenas a sujeição, o que é no mínimo frustrante, ou buscar alternativas fora dos parâmetros legais.

Certamente, chegando até aqui, pôde perceber que o texto inclina-se a condenar a decisão tanto de exibidoras como distribuidoras dos filmes envolvidas no caso e considerar que o consumidor é o que sai perdendo nessa história.

Segue alguns dos motivos quem embasam essa conclusão.

3D engana que eu gosto

Tanto crítica especializada quanto público leigo há muito perceberam que a maioria dos longas anunciados como compatíveis com o formato 3D trata-se de pura embromação, fantasia oportunista, picareta, das redes de cinema para encarecer o ingresso cobrando por algo que efetivamente não entregam.

Primeiro: a porcentagem de cenas onde é visível a aplicação da tecnologia é ridiculamente irrisória: restringe-se aos créditos inicias dos filmes com letras estilosas ganhando relevo que em nada acrescenta em termos de emoção. Na verdade, é tedioso.

Segundo: as poucas cenas pinçadas no decorrer da película são completamente esquecíveis, destacam apenas elementos do plano de fundo. Raras são as vezes que se fazem positivamente presentes em situações de clímax, de intensidade marcante.

Terceiro: o uso dos óculos propicia considerável perda de brilho nas imagens, prejudicando a visualização. Nada de muito relevante desde que fosse um pequeno preço a se pagar pela experiência memorável de testemunhar efeitos sensacionais por tempo satisfatório, entretanto isso não é uma regra, mas, sim, exceção. Basicamente, desembolsa-se grana extra por entrada costumeiramente salgada para passar mais de uma hora com uma geringonça no rosto que pouco revela em termos de relevância e prejudica a qualidade da exibição.

Os executivos do ramo conseguiram fazer dos cinéfilos um bando de masoquistas e ainda lucrarem com isso.

Devem rolar na gargalhada.

Insulto à inteligência

Fazer um filme que suporte realmente numerosas cenas com efeitos respeitáveis da tecnologia em questão demanda uma série de fatores: alto investimento, planejamento da equipe criativa para idealizar e inserir momentos onde o recurso teria bom uso, profissionais qualificados e experientes a respeito do tema, e tempo adequado de produção.

O calendário das principais produtoras da sétima arte, com condições de investir na tecnologia, é por demais apertado para se darem o luxo de dedicarem tanto tempo para produzir algo com as pretensões de ser um novo Avatar. O nível de investimento nas produções corriqueiras já é elevado, o mesmo vale para a publicidade dos filmes, o retorno financeiro, portanto, também devem ser. Um eventual fracasso de bilheteria pode ser suprido por outro filme com desempenho fantástico, porém é necessário preencher os semestres do ano com ao menos uma grande superprodução. O hiato que o financiamento de diversos filmes em 3D provocaria entre uma superprodução e outra seria longuíssimo, o que poderia comprometer os cofres das produtoras. Acresce que nada garante que os números da bilheteria atingiriam as expectativas.

Outro complicador é que a demanda do público cativo e cada vez mais exigente obriga-as a recorrem constantemente a pesquisa de mercado e medição da #Opinião pública por meio de crítica especializada e redes sociais, ocorrendo de muitas vezes sentirem a necessidade de refilmar, cortar, acrescentar ou praticamente reformular o filme inteiro. O que pode acarretar grandes desperdícios de material e finanças com uso de tecnologia tão onerosa.

Se obsevarmos o tempo do início das gravações e o encerramento da pós-produção da maioria desses filmes tipificados malandramente como 3D, perceberemos que o uso do recurso é inviável.

Ou seja, é praticamente impossível, até o momento, tamanha oferta de filmes em 3 dimensões, como as redes de cinema querem nos fazer crer, existir.

Desrespeito aos desfavorecidos

A política comercial adotada acaba excluindo ou lesando ainda mais pessoas que não conseguem visualizar os efeitos do recurso, como os portadores de ambliopia, estrabismo moderado ou grave.

Os que não sofrem com este tipo de problema, mas usa óculos, também pode ter os seus motivos para se queixar porque é desconfortável ter que assistir a um filme usando óculos sobre óculos.

Tiro no próprio pé

A estratégia comercial se melhora o desempenho dos balancetes por um lado, pode sustentar o segmento responsável pelo permanente vazamento da suntuosa montanha de dinheiro que irriga o setor por outro: o digital. Digital que acaba se materializando no mundo físico em forma de DVDs simplórios envolto por capas impressas caseiramente ofertados em barracas mambembes. Mas o déficit maior ocorre no estágio pregresso.

É provável que a situação incentive mais ainda a procura por arquivos ilegais disponíveis na internet e com um agravante: se antes tal escolha ocorria fundamentalmente por questão econômica, agora pode se tornar um ato simbólico de protesto, de deliberado boicote. O que faz do cenário surreal: as redes de cinema estimulam pessoas dispostas a ir ao cinema, com condições de arcar com os gastos, a se locupletarem com as benesses da era de tecnologia sofisticada acessível.

Tal prática não configura venda casada?

Não.

Apesar de ser.

Explico.

Pelo inciso I do artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) configura-se venda casada toda transação que vincular à compra de bem ou serviço a aquisição de outros itens, sem que estes sejam essenciais ao usufruto adequado do que se comercializa.

Evidente que essas megacorporações ao engendrar as suas maldades procurarão se valer da melhor assessoria jurídica possível a fim de evitar transtornos no âmbito legal.

O fato dos filmes reproduzidos terem parcela mínima, por mais ridículas e irrelevantes que sejam, de cenas em 3D asseguram argumentação aceitável perante as letras frias da lei. Não há legislação em vigor que determina que um longa-metragem para ser considerado um exemplar fidedigno da tecnologia tenha que apresentar tempo mínimo de exibição de cenas nesse formato. Havendo uma mísera sequência sem graça que comprove a aplicação do recurso valida a interpretação que se trata de uma exibição 3D.

Porém, o que o bom senso e a prática escancaram é avaliação totalmente oposta. Sendo assim, se fica caracterizado para a maioria que o que se comercializa está longe de entregar àquilo que se apregoa e que é completamente desnecessário a utilização do acessório que encarece o serviço, na prática, no mundo complexo onde as leis ainda não conseguiram penetrar ou alcançar, é venda casada.

Soluções

As próprias exibidoras podem resolver a questão com medidas simples.

Primeiro lutarem pelo rico dinheirinho com honestidade.

Precisa-se de mais dinheiro? Aumente o valor dos ingressos. É algo que me deixaria feliz ou aos outros milhões de usuários? Não. Claro que não. Porém, seria mais decente. Entregaria-se no final o prometido. Exibição com imagem, som e poltronas de qualidade.

Se for muito difícil esse caminho, ainda proponho medida paliativa.

Tudo bem, continuem se esforçando em arrancar uns trocos a mais dos otários ou ignorantes de ocasião, talvez seja uma predisposição genética a tentação pela malandragem, mas permita uma válvula de escape aos esclarecidos deixando a disposição sessões nos formatos tradicionais.

Havendo ainda resistência de sequer trilhar essa via de meio termo, tenho outra proposta.

Contudo, esta se dirige à esfera legislativa.

Seria de bom grado a elaboração de uma norma reguladora que determinasse um tempo mínimo de cenas com inconteste uso de tecnologia 3D até ao mais leigo dos usuários, algo em torno de 50% da duração do longa, proibindo, em caso da não observância do requisito, a exibição ou comercialização da obra cinematográfica no formato proposto e punindo, no vulgar descumprimento da recomendação legal, com multas intimidadoras tanto as produtoras como as exibidoras. #Cultura