Na quinta-feira (20) todos ficaram chocados com a noticia fatídica da morte do Chester Bennington [VIDEO], vocalista do Linkin Park. Confesso que de início não me senti afetado ou assustado e achei normal. Mais um caso de um vocalista que sofreu com a fama e o peso que é ser a voz de uma geração. Me lembrei da morte do Chorão, Amy e Chris Cornell e ao decorrer do dia li bastante coisas sobre a vida deles todos, mergulhei por fim num mar de morte e suicídio que pairou sobre o ar do dia 20 de julho de 2017. No final do dia, consegui perceber que aquele era um dia diferente de todos, um dia triste.

O Abuso sexual

Então, ignorante da vida pessoal desse ídolo por tanto tempo, veio-me a informação de que ele sofreu por muitos anos de sua vida e um acontecimento marcante para esse sofrimento foi o fato dele ter sido violentado quando criança e passou pelo medo de ser ridicularizado por ser uma vítima de #Abuso Sexual.

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Durante anos viveu com a dúvida se era homossexual. Então finalmente aquilo refletiu em mim como tinha refletido em outros milhões de pessoas durante o final de semana.

Não preciso trazer dados, gráficos e informações com fontes diversas para dizer que o abuso sexual infantil é preocupante no mundo e infelizmente crescente. Mas o fato que venho abordar é sobre quando se trata de um abuso sexual com uma criança do sexo masculino os dados são diferentes por estar mais omissos. O que o Chester passou na sua vida, outros centenas de milhares também. Ser vítima de um abuso sexual não só deixa marca profunda como traz junto dela o medo e a duvida durante um longo período de tempo. Para o homem existe dentro dessa sociedade machista uma vergonha que é imposta e traz junto dela uma carga maior do que para a mulher.

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Venho falar disso com propriedade porque eu mesmo fui vítima de abuso sexual e, por ser homem, demorei quase 28 anos para me abrir sobre o que aconteceu.

Penso eu que para a mulher é diferente, pois elas se abrem entre si de uma forma mais acalorada e o próprio espírito feminino tem essa ligação linda que faz com que automaticamente uma se torne aliada da outra em momentos tão difíceis. Para o homem é bem diferente, o homem é mais fechado por natureza e o medo de que isso se volte contra você num futuro, num boato ou em uma roda de amigos é tão apavorante quando o caso em si. Pra mim, a solução foi guardar isso a sete chaves bem no fundo da minha mente e ver essa macha contaminar cada relação minha e me tornar uma pessoa sombria e depressiva.

Me afundei em um medo nesses últimos cinco dias, medo de me tornar um Chester sofrendo ainda aos 41 anos com o que me aconteceu quando eu tinha apenas 12. Apesar de já ter participado de grupos de ajuda, psicólogos e terapias, o meu abuso voltou e bater em minha mente com força, como uma pedrada em um carro acelerado numa pista escorregadia, nesses últimos dias tudo ficou confuso.

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Decidi escrever aqui e contar esse relato e sei que, como eu, existem outros milhões, onde a história do abuso está trancado à sete chaves e escondida dos familiares e amigos, mas nunca escondida de nós mesmos, pois está sempre presente e determinando a maioria dos nossos atos. Para as pessoas de fora, existe uma lacuna em cada ato, onde elas não entendem o motivo de porque alguém faz isso ou aquilo, ou porque quem sofreu tanto por um motivo não revelado se torna tão autodestrutivo.

Se abrir pode ajudar

Por mais que eu ainda não esteja 100% curado do que me aconteceu e jamais estarei, encontrei na abertura do diálogo um pouco de alívio para quando esse meu trauma vem à tona e escrevo aqui hoje usando esse canal de comunicação não para me vitimizar e sim para mostrar para os outros que são como eu que é preciso falar, é preciso desabafar e compartilhar. Cada um que lê esse artigo se torna um aliado na minha jornada, alguém que vai carregar comigo o que me tornou quem eu sou e me fez a minha vida inteira me trancar para relacionamentos e me jogou em um mundo sombrio de silêncio. Cada leitor se torna automaticamente meu confidente e meu amigo.

Todos nós, como seres humanos que compartilhamos desse mesmo ar, devemos ajudar e apoiar uns aos outros e nos tornarmos livres de julgamento. Busque em pessoas que pensam assim uma ajuda, um ombro. Chore se quiser, ria disso se quiser mais não deixe que isso seja um câncer na sua vida por mais tempo, pois assim como Chester tinha seis filhos eu acabo de ter um e muitos outros na minha situação também são pais, filhos e irmãos. Não deixe que isso te mate lentamente. Sempre existe alguém nesse mundo que te ama e te quer bem, eu descobri isso quando me abri e te convido a fazer o mesmo.

#Chester Bennington #última entrevista