O ambiente político brasileiro está marcado por um sentimento difuso negativo em relação à política em geral e crescente diminui a confiança nas instituições políticas, fortalecendo a ideia de vivermos sob uma democracia inercial. Intensificou ainda mais essa crise o golpe parlamentar promovido há pouco mais de um ano, tirando violentamente a presidente Dilma Rousseff do poder e que alçou ao comando do Executivo o peemedebista Michel Temer, o qual formou um governo tão retrógrado que faz parecerem modernos os governos da República Velha.

Mais recentemente, o clima de descontentamento e desconfiança ficou ainda mais intenso com as contrarreformas impopulares de Temer e as acusações que atingem em cheio o seu governo.

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Diante desse cenário, para muitos, a saída aceitável é uma eleição geral.

Expressão clara de que os tempos estão conturbados são os candidatos apresentados como favoritos e, não raro, também como paladinos. É o caso do atual prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), um pirotécnico maníaco que faz parte e representa as elites brasileiras — e que, se por acaso chegar ao alto escalão do Executivo, ampliará ainda mais os antagonismos sociais.

Um outro aventureiro de plantão apontado como preferido é o deputado federal Jair #bolsonaro (PSC-RJ), um político tão violento e desrespeitoso dos direitos humanos que uma publicação australiana o elegeu como o político mais abominável do mundo.

Para algum alívio de uma parcela considerável da esquerda, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressurge como o mais forte candidato.

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Contudo, o golpe não foi dado para meses depois o governo ser entregue novamente aos petistas.

Assim, diante desse crescimento do ex-presidente Lula, a frente antidesenvolvimentista e pró-reformas neoliberais, a qual foi a principal protagonista no processo de queda da ex-presidente Dilma Rousseff, está tomando concomitantemente duas ações: buscam criminalizar Lula e torná-lo ilegível e, ao mesmo tempo, preparam os lobistas que forçarão um possível novo governo Lula, para o caso dele ser eleito, de forma que não só sejam mantidas as reformas implementadas pelo governo Temer, como também para que sejam aprovadas as que ainda não foram, como a reforma trabalhista e da Previdência.

A frente antidesenvolvimentista e pró-reformas neoliberais é formada principalmente por grupos com interesses rentistas, como o setor financeiro nacional e internacional, a burguesia interna ligada ao grande capital internacional, a mídia corporativista local e internacional, além dos grupos políticos tradicionais e os estratos superiores da classe média.

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Essa frente tem como objetivo-mor o controle da política econômica, da política social e da política externa do Estado brasileiro.

E farão o que estiver ao alcance para contra arrestar a presença de um comando do Executivo que atrapalhe a implantação do tripé neoliberal (juros altos, superávit primário elevado e câmbio flutuante), como vem fazendo o governo Temer.

Um dos modus operandi é o ataque sistemático à figura do ex-presidente Lula, através da grande mídia e, nos últimos anos, sustentada por uma relação entre essa mídia e parte do Judiciário. Até as pedras do calçamento viram toda a força-tarefa que se formou para denegrir a imagem dele, através de denúncias sem provas, prisões-preventivas desnecessárias, entre outros. Assim, sob o guarda-chuva de um suposto combate à corrupção, agitam bandeiras como essa que podem contar com algum apoio popular.

Noutra frente de combate, que pressuponho estar se formando nos subterrâneos de Brasília, estão as movimentações entre as elites políticas e setores privados para formar grupos de pressão de modo a controlar qualquer ação de um possível governo Lula que vá na contramão da implementação das reformas estruturais hoje realizadas por Temer. Dado o fato de se tratarem de ações por trás das cortinas, nos bastidores, ao menos por enquanto temos pouco conhecimento a respeito.

Por isso, tal hipótese não passa de suposições. Mas como essas “movimentações subterrâneas” são algo característico do nosso sistema político, secularmente controlado pelo capital, ao invés de ser o contrário, não custa suspeitar. Se non è vero, è bene trovato.

Uma prova de que o Congresso está se resistindo a qualquer barreira à continuação das votações fica visível na rejeição as propostas da oposição em paralisá-las, tendo em vista o cenário de agravamento da crise em torno de Temer. Enquanto alguns deputados da base aliada — especialmente expoentes do PSDB e do DEM — tentam sustentar o discurso governista de aparente normalidade, a oposição argumenta que o sufocamento do governo impede a continuidade das pautas de interesse do Planalto.

“Como nós vamos votar qualquer matéria com o país nesta situação em que ele se encontra? Não podemos ser coniventes com essa tentativa de demonstrar que o que está acontecendo é normal. Não iremos votar qualquer coisa antes da instalação da comissão do impeachment”, disse o deputado federal Alessandro Molon (Rede-RJ).

Dada todo esse cenário e as características estruturais do nosso sistema político, temo que apostar hoje, unicamente, nas velhas máquinas partidárias e em figuras carismáticas como a de Lula, sem concomitantemente ter em mente a necessidade de formar uma forte base popular — e trabalhar pela construção dessa base que sustente um novo programa de governo progressista e tenha força para resistir aos ataques da frente neoliberal, me parece que terá a função única de abrir caminho para aprofundar ainda mais a crise política e o já preocupante divórcio entre sociedade e sistema político.

Além disso, se eleito um presidente sem uma base forte, ainda que seja de algum caráter progressista como o Lula, permitirá que as contrarreformas implementadas por Temer não só se mantenham, como também o processo de implementação do retrocesso continue de vento em popa.

Ou seja, nenhum fim de crise estará à frente se continuarmos apelando somente para as possibilidades apresentadas pelos “donos dos portões institucionais”. Apelar para saídas rápidas, ilusórias e definitivas só propiciarão ao sistema transformar-se para, paradoxalmente, tudo continuar o mesmo. Nas minhas poucas luzes, portanto, a saída está na concatenação de forças entre instituições e os novos movimentos sociais de base para que, juntos, conquistem a força necessária para realizar de baixo para cima as mudanças de que tanto o país necessita.

Para isso, precisamos ter clareza de que é possível sim construir de baixo para cima uma resposta a situação de crise que vivemos na atualidade. Podemos sim superar as imagens carismáticas, apostando em arranjos coletivos que vão para além dos velhos personalismos da política brasileira.

Quando me refiro que a saída é de baixo para cima me refiro à parcela da população, razoavelmente organizada, que anseia por mudança. Vários movimentos, muito enérgicos, fragmentados e fragmentários, estão se formando hoje na base da sociedade.

Esses movimentos em vários aspectos se diferenciam dos movimentos sociais tradicionais, especialmente no que tange a postura em relação às instituições. Assim, enquanto que os novos movimentos pregam (conscientemente ou não) um afastamento e, às vezes, até o abandono das instituições, os movimentos sociais tradicionais fazem parte das instituições, integrando-as conjuntamente com os partidos, os três poderes etc.

Creio que para reordenarmos o nosso sistema político em um sentido positivo precisaremos que as instituições (movimentos sociais tradicionais, partidos, três poderes, etc.) percebam a necessidade de se abrir a esses novos movimentos sociais. De outro lado, esses novos movimentos também precisam ter interesse em influenciar as instituições.

Então, de ambos os lados é preciso que haja abertura. Não dá para as instituições, principalmente os partidos e movimentos sociais tradicionais, olharem para os novos movimentos de base e afirmarem que estão de braços abertos para eles, desde que os mesmos aceitem o seu antigo formato (centrista, hierárquico, etc.). Não dá também para esses novos movimentos se lixarem para as instituições.

Sem essa nova energia que está na base da sociedade, as instituições continuarão no processo de definhamento que estamos vendo hoje. E esses novos movimentos, sem as instituições, não conseguirão se organizar nacionalmente para resolver grande parte dos problemas do país.

Acredito que esse processo de superação do divórcio e concatenação de forças é mais importante (e difícil) do que simplesmente manifestarmos apoio a um ou outro lado; algo que as pessoas fazem com frequência quando apontam apoio incondicional ao ex-presidente Lula, sem realizar as necessárias críticas, e dão as costas para a energia viva e nova que agita a base da sociedade.

É algo que acontece também do outro lado, quando integrantes desses novos movimentos se opõem à união com partidos, movimentos sociais tradicionais, se opõem à participação de processos eleitorais etc.

Então, para vivenciarmos as mudanças sociais positivas e em larga que ansiamos, precisamos da concatenação de forças. Nenhum fim de crise está à frente se apostarmos na separação dessas duas frentes. Se Lula chegar a se eleger sem ter essa base, veremos o peemedebismo se reinventar e as rachaduras em nosso sistema político se alargarem e, assim, a crise sistêmica se perpetuará e o diagrama de forças se reorganizará para manter intacto o pacto conservador, em benefício da frente neoliberal e em detrimento da população, especialmente a mais pobre. #Eleições 2018