Foi profundamente drástico e terrível o processo ao qual a sociedade brasileira foi submetida no regime civil-militar (1964-1985) – e que, de diversas maneiras, ainda persiste. Subjugados ao quinhão mais cruel de um novo padrão de poder imposto pelas fardas dos militares e cartazes e gritos de ordem da classe média alta, caíram aos milhares sob a progressão da hecatombe.

Infelizmente, hoje uma parte significativa da população, ao invés de apoiar a luta contra esse massacre que continua acabando com vidas e sonhos nas periferias, no Congresso, na universidade, faz exibição pública de apoio à quebra do Estado Democrático de Direito por meio do apoio à queda de uma presidenta legitimamente eleita; e, entre outros mais puristas, ainda defendem a volta do regime e o fim dos direitos históricos e arduamente conquistados pelo povo.

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O fato de parte da população ainda abraçar com tanta facilidade a volta do regime demonstra a atualidade do tema e a necessidade de desenvolvimento de “anticorpos” contra qualquer tipo de apoio à quebra da institucionalidade democrática e à volta da ditadura. Para isso, creio ser fundamental estarmos frequentemente refletindo de diferentes maneiras a respeito das múltiplas e diversas características que permearam a noite que durou vinte e um anos.

No #documentário “Militares da Democracia: Os Militares que Disseram Não”, Silvio Tendler contribui para o fim de nossa desmemoria trazendo uma perspectiva diferente sobre o tema. Ele desconstrói a comum visão de que o apoio ao golpe de 1964 e à perpetuação do regime foi pleno e condicional entre os militares. O filme faz parte do ‘’Projeto Marcas da Memória’’, da Comissão de Anistia, e mostra que, ao invés do completo e autoritário consenso, na realidade era o dissenso que permeava entre os homens de farda, pois, entre os oficiais, havia aqueles que lutavam pelo restabelecimento da democracia.

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Por meio de depoimentos e registros de arquivos, Tendler expõe a luta desses homens e as consequências por se oporem aos seus colegas. Muitos dos militares que defenderam a ordem constitucional e uma sociedade livre e democrática foram cassados, perseguidos, torturados e mortos.

O documentário mostra que antes, durante e após o golpe essas vozes dissonantes entre os militares concebiam que a ditadura massacraria os complexos dinamismos culturais da população brasileira, com catastróficos efeitos políticos, econômicos, culturais e sociais para as nossas organizações. Os relatos demonstram a clareza de que, por meio do regime, os grupos civil-militares que o coordenavam feriram os nossos costumes, a língua, crenças e tradições; e essa ferida continua aberta.

Esses militares lutaram, então, contra o decreto de extermínio aplicado pelos ditadores que buscavam sustentação em argumentos que só vislumbravam o mundo a partir das lentes do desenvolvimento dominante e que desconsideravam a importância da democracia, da liberdade.

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Lutavam, portanto, pelo fim da dor de Marias, Joãos e Clarices que banhavam as terras do país com suas lágrimas.

É fundamental buscarmos justiça e reconhecer na história do país a luta dessas pessoas que doaram a própria vida pelo fim de um regime que concebia como obstáculos a serem removidos qualquer coisa que fugisse da lógica da anexação, da incorporação, da integração em favor de suposto “desenvolvimento”. O documentário de Tendler é, nesse sentido, um grande e belo passo na longa caminhada pela fundamentação de nossa #Cultura história a respeito da ditadura civil-militar.

Num país onde o mandatário-mor representa – cada vez mais – os grupos ultraconservadores e rifa os nossos direitos, é mais do que importante refletirmos na noite e no sol, na chuva e no frio, em todos os espaços, a respeito do nosso passado ditatorial que se mostra sempre não ter passado. Assim, talvez, quem sabe sejamos menos dóceis às saídas que, no fim, se revelam uma grande furada.

Ano: 2014. Gênero: documentário. Direção: Silvio Tendler. Produção: Ana Rosa Tendler. Locução: Eduardo Tornaghi. Duração: 88 min. Classificação indicativa: 12 anos. #Crise