A nossa época tem sido atravessada por muitos acontecimentos, às vezes de grandes tragédias. Não raro, o adjetivo de “histórico” é reivindicado antes de o dia acabar. Em tempos tão acelerados, a vida aparenta estar pulsando na intensidade dos tambores de Minas e na velocidade do pensamento. “Não há tempo a perder” está estampado em todos os cantos. Por isso, se estiver deprimido, tome um químico. Quer amor? Clique no coração do fast-love. Está com fome? Há um fast-food ao alcance da mão. Não pare, do contrário uma represa se formará na linha de produção, nos ensina o comercial de TV.

Sempre em frente é o mantra. Consumir é a palavra-chave.

Publicidade
Publicidade

Em cada vez maior velocidade, é a pretensão. E, assim, seguimos nas ruas de bytes e nas de asfalto feito bestas anestesiadas stalkeando vorazmente catálogos de pessoas, comidas, drogas, informações, trecos, sem tempo para dirigir tudo o que é consumido; seguimos desesperados por uma experiência mais intensa que a anterior que nos faça sentir a vida que escapa por entre os dedos; seguimos atônitos correndo pelos nossos efêmeros desertos existenciais, a sede de ser único incrustrada na garganta, como o viciado em cigarros que fuma um atrás do outro em busca da intensidade do primeiro.

Num mundo globalizado, a aceleração do processo histórico também é globalizada. Do país das calças bege aos Emirados Árabes Unidos, da terra do Tio Sam à terra do sol nascente, tudo parece acontecer mais rápido.

Publicidade

A historiografia, especialmente a que parte de uma perspectiva teórica de cunho marxista, defende a tese de que esse processo de aceleramento das transformações do mundo começa com a Primeira Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Tem início nesse período e se intensifica no XIX, ao ponto de o XX ser compreendido hoje por alguns como a ‘Era dos extremos’.

Foi um processo de mudança não só na velocidade com que as coisas se transformam, mas também nas percepções do tempo e da história. Antes dessas duas revoluções, não se acreditava numa ruptura com o passado. Isto é, as pessoas acreditavam que suas vidas seriam basicamente semelhantes às dos seus antepassados. As revoluções inseriram o coeficiente de mudança na consciência histórica delas.

De repente, o tempo não era mais estático e o horizonte apontava para um #futuro aberto de múltiplas oportunidades. Sapere aude!, brandava Kant em seu manifesto. Ouse saber! Faça história! Tenha coragem de usar o seu próprio entendimento. A humanidade se via no direito de escolher seu rumo e parecia caminhar para um mundo melhor (a noção de progresso).

Publicidade

Para essa concepção de tempo histórico, preponderante no século XIX, o passado esta sendo cada vez mais deixado para trás pela locomotiva da história e o presente é considerado um estado de transição para um futuro repleto de possibilidades.

Ainda permanece conosco a percepção de uma aceleração das mudanças, mas, será que ainda acreditamos que podemos fazer história? O futuro ainda é compreendido como uma janela aberta de possibilidades?

A concepção social de tempo dominante na contemporaneidade é outra. O futuro não parece mais aberto de possibilidades. A janela está fechada por ameaças, ou, no mínimo, significantemente reduzida. O presente deixou de ser somente um espaço temporal de transição e se torna amplo, repleto de simultaneidades, no qual o nosso papel de transformação perde força. O passado não fica mais para trás. Ele é concebido como algo que não passa e sentimos que somos inundados por ele.

Portanto, hoje carregamos nos ombros o peso da projeção de um futuro distópico. O que será de fato ninguém pode dizer que sabe. Vivemos em total dúvida sobre o amanhã. As séries, produção cultural com maior poder disseminação na atualidade, representam bem essa distopia: são cada vez mais sombrias, quando não apocalípticas, como se vê em “The Walking Dead (AMC)”.

Arrisco dizer que essa distopia tem origem na sensação de estarmos de mãos atadas. Há muitos outros fatores que levam ao fatalismo. A crescente ideia de que o nosso poder de ação no mundo é ínfimo pode ser um deles. Hoje se alguém disser que quer mudar o mundo, será imediatamente taxado de louco, ingênuo, ou coisa pior. Viver em um presente despido da crença do poder dos sujeitos de transformar e mudar os rumos da história resulta numa visão fatalista do futuro. “O inverno está chegando”, frase da série de “Game of Trones (HBO”, expressa bem isso.

Realmente o poder de mudança individual é pequeno. Quero dizer, sozinhos não podemos fazer muito. O problema é que vivemos num mundo ultra-individualista, no qual somos educados a agir assim – sozinhos. O sistema capitalista foi muito feliz ao nos separar e nos fazer crer que algo pode ser feito mesmo estando cada um na sua bolha. Para fundamentar essa cosmovisão, constantemente é eliminado qualquer aspecto da realidade que não faça oposição ao conjunto de ideias, correntes e tendências que dão uma dimensão prática ao conceito de coletividade. A nossa incapacidade de agir enquanto coletivo, consequentemente, nos impede de vislumbrar um futuro que não seja Black Mirror (Netflix).

Perceba que o modo como projetamos o futuro incide no que acontecerá no presente. O que sentimos por tudo o que vivemos condiciona o que faremos no agora, assim como a forma como nos relacionamos com tudo o que ainda não vivemos. Diante da paralisia originada numa ideia prévia de que o amanhã deve ser temido, fico com a sensação de estarmos num trem-bala em alta velocidade vendo a vida passar pela janela numa sucessão de cores e formas, sem saber para aonde estamos indo. Ficamos sentados nele absorvendo tudo o que nos rodeia e tentando não morrer afogado em insegurança e desânimo. Olhamos para frente e sentimos não sermos bom o bastante para mudar o curso da história. Nos deparamos com um mundo inteiro por fazer e acreditamos que, depois de muito trabalho, ainda muito estará por fazer.

No entanto, o amanhã não pode ser apenas inverno. Numa época de corações partidos e ilusões perdidas, precisamos reaprender a imaginar um futuro onde se possa viver e onde se queira viver. A pergunta que paira no ar é: isso ainda é uma possibilidade? #depressão #desilusão