A última pesquisa Ibope mostra que o governo Temer tem aprovação de apenas 5% dos brasileiros e a maioria acha que seu governo é pior do que o de Dilma Rousseff. O histórico desse Instituto aferiu também que essa é a pior aprovação que um presidente já teve desde o fim da ditadura.

Motivos para a queda de Temer não faltam: altos índices de rejeição; destruição de direitos trabalhistas; flagrantes de corrupção; aumento de impostos; congelamento dos investimentos sociais por duas décadas; deturpação da educação; crise econômica.

A versão barata do Nosferatu não pode, então, nem sair da tumba, tamanho repúdio que inspira. E não cai. Por quê? [VIDEO]

Numa crise tudo se concentra; todas as mudanças ocorrem quase que instantaneamente.

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Alguns dos componentes dessa soma que podem ser apontados para explicar a permanência desse governo no poder são: a hegemonia de Temer em relação as três maiores bancadas no congresso – as chamadas “BBB” (Boi, Bala e Bíblia); o papel da Lava Jato tanto para o sistema político, quanto para a população; o recuo de uma grande parcela da oposição (sindicatos e movimentos sociais).

As principais frentes parlamentares da Câmara dos Deputados, que se organizam para defender temas ligados ao agronegócio, à segurança pública e à religião, dispõem de quase a metade dos votos da Câmara. Além de serem em maior número, são capazes de formar maioria com tranquilidade, por ocuparem postos-chave na estrutura do poder da Casa. Temer é líder dessas três bancadas. Para assegurar esse apoio, o peemedebista tem reforçado o seu comprometimento com as necessidades do agronegócio, da indústria do armamento e das igrejas-empresas neopentecostais; ele recebeu mais de uma centena de deputados, distribuiu emendas parlamentares, atendeu a reivindicações, além de ter dado mostras de que poderá apoiar outras demandas históricas dos grupos.

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A hegemonia de Temer é reforçada pelo fato de que grande parte dos parlamentares estão sendo investigados pela Lava Jato. Diante das investidas da Justiça, é mais interessante para o sistema político manter na cadeira da presidência alguém que também está numa das listas da operação, porque aquele que está sendo investigado fará o que for possível, enquanto presidente, para barrar as investigações, como Temer faz. Logo, será suicídio dos investigados se chegar ao comando do Executivo alguém que não está sendo investigado – e que, por isso, não fará nada para conter a Lava Jato.

Além de possuir esse papel para com o sistema político, a operação Lava Jato tornou-se uma válvula de escape para a crise de representação. Atualmente, essa operação atende à grande parte dos anseios de mudança e da rejeição generalizada da política que percorrem de alto a baixo a sociedade brasileira.

A desmobilização da população também se deve a postura das organizações da sociedade civil, como muitos sindicatos e movimentos sociais que se submetem mais aos interesses dos grandes partidos, do que os da sociedade.

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Muitos desses partidos, visando as eleições de 2018, preferem não organizar protestos contra Temer no momento em que está mais frágil. Consequentemente, aquelas organizações, por se submeterem a esses partidos, adotam a mesma posição, preferindo jogar o jogo dos poderosos, deixando o governo Temer definhar, ao invés de mobilizar a população para convocar eleições diretas e para o debate de um programa que não passe ao largo do crivo das urnas.

Diante das ruas vazias e com grande apoio das frentes parlamentares, provavelmente Temer continuará no poder até as eleições de 2018. Ou, então, caso caia, precisarão eleger indiretamente alguém que também esteja sendo investigado.

A questão, então, é que temos de um lado do espectro um sistema político-institucional composto em sua maior parte por indivíduos que estão mais preocupados em aniquilar a Lava Jato para salvar a pele; do outro, uma parcela considerável da população insatisfeita que deposita as suas esperanças nessa mesma operação; e, no meio, a própria operação que tem como característica fundamental a constante desestabilização do sistema político.

As organizações da sociedade civil poderiam ter o papel fundamental de mobilização da população para pressionar os políticos a promoverem eleições diretas. Mas, essas organizações, como a CUT, preferem estar atreladas aos interesses dos poderosos e, por isso, recuam para que o candidato preterido pelo partido aliado tenha maiores chances em 2018. E os movimentos contra corrupção, como o MBL, não parecem preocupados em convocar recorrentes manifestações contra o atual governo.

Alguns movimentos isolados até tentam mobilizar a população, mas, sozinhos e por causa da transformação da Lava Jato em válvula de escape da crise, não conseguem construir manifestações da mesma proporção que vimos em 2015 e 2013. Por essas razões, é muito provável que as ruas só voltem a encher se a Lava Jato for aniquilada pelos grupos investigados.

E grande parte desses movimentos se contentam em convocar manifestações, ao invés de também realizar um trabalho de base por meio de formações político-sociais que visem um amadurecimento da cultura política.

O vazio das ruas, é claro, aumenta as chances de o pemedebismo se manter no poder. O fato de Temer possuir hegemonia no Congresso assegura ainda mais isso, permitindo que o pemedebista continue impondo goela abaixo a agenda neoliberal. Tudo isso evidencia que, além de eleições diretas, do debate de um novo programa e de uma reforma política, precisamos que a nossa cultura política mude num sentido que permita que as organizações da sociedade não se submetam mais ao jogo dos grandes partidos. Muitos destes se consideram “donos dos portões institucionais” e simplesmente afirmam que não há alternativa à institucionalidade e que todo o impulso vital da base da sociedade deve ser canalizado para a eleição dos velhos nomes da política. #Políticos Corruptos #Crise-de-governo