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Na semana passada, o jornal “Estado de Minas” publicou uma matéria, assinada pela competentíssima Mariana Peixoto, que ouviu professores de canto e maestros para avaliar a aptidão específica de #Pabllo Vittar. Foi a primeira e única reportagem que li, até agora, que deixou a celebrização de lado para tratar o artista apenas e tão somente como um intérprete. Seguindo a linha editorial dos jornalões, o texto destacou aquilo que os analistas viram de melhor em Vittar, evitando expor os entrevistados à ira do fundamentalismo gay e desagradar os fãs do artista. Dentre os elogios, um “maravilhoso” chama atenção, enquanto a crítica mais contundente – um “bem ruim” – foi dirigida ao repertório.

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Sair ileso de uma “banca” com quatro especialistas de alto quilate não é fácil, mas a boa impressão deixada pode ter sido fruto de uma arriosca capaz de embair os ouvidos mais exigentes: a tecnologia.

Não é preciso ser graduado em Música nem em Desenvolvimento de Sistemas para perceber que há um abismo entre o Pabllo Vittar do CD “#Vai Passar Mal” e aquele que se apresenta nos programas de TV e sobe nos palcos. Apesar de as vozes destes dois Pabllos terem o mesmo timbre, sugerindo que têm a mesma fonte, elas têm intensidade, sustentação e alcance absolutamente distintos. Traduzindo, qualquer pessoa com dois neurônios consegue perceber que aquilo que ouve, quando reproduz o disco, é infinitamente superior ao que escuta, ao vivo.

Ao vivo, é como se Vittar fosse um cover fraquíssimo de si mesmo e só dá para acreditar que se trata da mesma pessoa do CD porque é ele mesmo, ali na sua frente.

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O som em um volume que, de tão alto, chega a ferir os tímpanos é outro elemento que disfarça o enorme contraste entre os dois Pabllos. Mas como entra a tecnologia nesta história?

Bom, não é de hoje que indústria cultural, principalmente a indústria fonográfica, seleciona seus talentos mais pela imagem do que, propriamente, pela vocação. A captação de um artista para o casting de uma grande gravadora segue regras que, muitas vezes, deixam de lado a parte musical e focam o rótulo que aquele “produto” pode levar. Encontrar e tomar para seu portfólio um artista que represente a bandeira da diversidade, por exemplo, da forma que Pabllo o faz, com coragem e disposição, é muito mais difícil do que produzi-lo musicalmente. Aliás, esta é a expertise dos produtores musicais: levar um canarinho para dentro do estúdio, gravá-lo e processar a gravação até que seu canto soe como o rugido de um leão.

Pro Tools

Eles não economizam tempo nem dinheiro e, para quem conhece minimamente os segredos da produção musical, não faltam recursos para arrancar o rugido de leão do bico de um canarinho.

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O mais conhecido deles é o software chamado Pro Tools, que faz parte de uma estação digital de áudio (DAW) produzida pela Digidesign (Avid Technology), com uma infinidade de efeitos e aplicações para gravação, mixagem, pós-produção, dublagem e até mesmo automação. O Pro Tools é conhecido por transformar qualquer pessoa em cantor ou cantora, permitindo até mesmo a programação antecipada de notas musicais. Com ele, basta falar as palavras no ritmo certo que a melodia se materializará digitalizada.

Os recursos do programa são usados na medida do necessário e, também, da “roupagem” pretendida. Um intérprete qualificado pode ter no Pro Tools apenas um socorrista, usado para aparar uma ou outra aresta. Já uma intérprete desqualificada, como a Xuxa, por exemplo, não existiria sem o suporte deste software – vale lembrar que quatro dos dez álbuns mais vendidos da história do Brasil são da Xuxa. O grande lance deste tipo de tecnologia é que, de pouco tempo para cá, ela também pode ser usada em tempo real, ou seja, durante apresentações ao vivo. Portanto, o leitor não deve se iludir, porque as grandes produções musicais, os shows mais caros, com certeza incluem este recurso no seu “repertório”.

Ao contrário dos discos de jazz, de música de concerto e de uns poucos nichos mais exigentes da própria MPB, além de outros estilos, que têm na pureza e na fidelidade do áudio seu grande mote, a música pop não tem este compromisso com seu público. A música eletrônica, por si só, já é o maior exemplo de manipulação e processamento. O que os fãs de Madonna ouvem é uma colcha de retalhos, são fragmentos de horas e horas, semanas, meses de trabalho em frente a mesas de som e supercomputadores para criação de efeitos especiais. O estúdio e seu simulacro são cada vez menos demandados para este tipo de produção, porque ela não guarda absolutamente nada do som natural.

Pabllo Vittar, assim como Anitta [VIDEO], Ludmilla e toda uma avalanche de artistas que têm letras dobradas no prenome, nada mais é do que um produto desta indústria. Não fossem estes recursos, Vittar não existiria. Não fosse esta conotação sexual chula aplicada a tudo, não fosse a vulgarização imposta, perversamente, às parcelas mais vulneráveis da sociedade pela música, a indústria fonográfica ainda estaria apoiada no Roberto Carlos. Não há como dissociar a música pop da manipulação e do processamento, assim como não dá para dissociar o rock da guitarra elétrica, o samba do pandeiro. E o mesmíssimo raciocínio se aplica a Ed Sheeran, Kendrick Lamar, Taylor Swift, Drake, Bruno Mars e Khalid, que estão entre os dez maiores vendedores de discos, nos Estados Unidos, hoje.

Lucro

A extravagância que marca os artistas pop de várias regiões globais, do gangsta rap norte-americano ao K-pop sul-coreano, também não é uma coincidência. As gravadoras ganham dinheiro com a venda de seus produtos, não interessa se são CDs, DVDs, arquivos de áudio ou música via streaming. Da mesma forma que acontece com outros setores industriais, seu lucro advém da equação entre custos de produção e faturamento, e contratos com Pabllos Vittares da vida são muito mais rentáveis do que os termos exigidos pelo próprio Roberto Carlos, por Chico Buarque ou pelo Skank que seja. Além de remunerar mal o Pabllo Vittar, maximizando seus ganhos, a #Sony Music não tem nenhum compromisso com sua carreira para além de uma eventual renovação de contrato, que seja ainda mais vantajosa para a companhia.

Há 25 anos, quando a rejeição a uma figura como Pabllo Vittar desencorajava as gravadoras, o escolhido foi Edson Cordeiro. Ele estourou como contratenor pop, mas foi a conta de a curiosidade do público esfriar, de Cordeiro assumir uma postura mais militante e, em um terceiro momento, degringolar para trilhas sonoras de boates gays, que a indústria fonográfica o deixou à deriva. Vittar é, para a multinacional que o elevou ao estrelato, apenas e tão somente um meio de produção. A Sony Music tem por ele o mesmo apreço que os irmãos Joesley e Wesley Batista têm pelo gado abatido, picotado, envelopado e comercializado pela JBS.

Francamente, ninguém é tão ingênuo a ponto de imaginar que o contrato de Vittar com a Sony Music tem as mesmas cláusulas, prevê a mesma participação daquele que a gravadora assinou com a dupla Zezé di Camargo & Luciano e que vem renovando, desde 1993. O futuro de Vittar é o mesmo do MC G15, do hit “Deu Onda”. O duque-caxiense, que viu seu cachê subir 500% em apenas dois meses e apareceu no topo da lista da Spotify, em novembro de 2016, evaporou rápido. Na última vez em que ele foi notícia, em fevereiro do ano passado, sua assessoria teve trabalho para negar um boato de que G15 havia sido preso.

Mesmo sem ter bola de cristal, posso garantir que Pabllo Vittar não terá longevidade para além do esgotamento de sua imagem e sua voz esganiçada – que já começam a cansar. A superexposição que, hoje, enche o bolso da sua gravadora e fascina o próprio cantor, em breve vai devolvê-lo a um nicho muito segmentado. O status de diva será sucedido pelo de bizarrice e seu “talento” vai se esgotar com a chegada de um transexual mais atraente. Isso não vai ocorrer por culpa de Vittar, mas pela perversão do mercado fonográfico, pela necessidade de renovação das celebridades e pelo surgimento de outros estilos, que vão fazê-lo parecer mais fora de moda do que a sandália gladiadora. Por isso, é bom ele aproveitar seu momento!