Pioneiro das telecomunicações, Roberto Landell de Moura (1861-1928) não ocupa ainda um lugar adequado na história da ciência. Inventou o rádio, projetou a televisão e o telex e vislumbrou as comunicações interplanetárias. Lutou e muito para colocar os inventos no mercado, mas nenhum governo ou capitalista o apoiou. O tempo passou e aqueles aparelhos foram (re)inventados por cientistas de outros países.

No final do século XIX, a telegrafia sem fio era a tecnologia de ponta em comunicações. Padre Landell, como ele gostava de ser chamado, foi além ao realizar experiências de transmissão da voz humana à distância, sem fios.

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Os jornais O Estado de S.Paulo, Correio Paulistano, O Commercio de São Paulo, Jornal do Commercio (RJ) e Jornal do Brasil noticiaram o evento no Colégio Santana, zona norte de São Paulo, de 16 de julho de 1899. Convidados, Antonio Francisco de Paula Souza, fundador e diretor da Escola Politécnica, representantes da Companhia Telephonica e do Telegrapho Nacional e a imprensa testemunharam o nascimento do rádio.

"Toquem o hino nacional", falou o Padre Landell através do tubo do aparelho. E ouviu-se o som musical, que atravessou o espaço entre a Ponte das Bandeiras e o alto de Santana. Há 115 anos, portanto, inaugurou-se, de fato, a era do veículo que hoje é a mídia mais popular em todo o mundo.

O padre-cientista também fez transmissões de rádio entre o Mosteiro de São Bento, no centro da cidade, e a chácara da Ordem (bairro da Casa Verde).

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A experiência de 3 de junho de 1900, entre o Colégio Santana e a Avenida Paulista (8 km em linha reta) foi presenciada pelo cônsul britânico Percy Charles Parmenter Lupton.

Naquele momento, o italiano Guglielmo Marconi se dedicava a aperfeiçoar a telegrafia sem fio - transmissão de sinais em código Morse. O canadense Reginald A. Fessenden se ocupava da radiofonia e fez a sua primeira transmissão em dezembro de 1900.

Padre Landell patenteou os inventos no Brasil em 9 de março de 1901 (Fessenden em setembro de 1901) e não teve reconhecimento. Viajou então para os Estados Unidos onde vários jornais, como New York Herald, The St. Louis Republic e The St. Paul Globe e a revista Western Electrician destacaram o ineditismo das suas experiências. Na Espanha, a revista La Lectura o comparou ao alemão Ruhmer salientando que os seus resultados eram superiores.

Em Nova York, transmitiu o som de uma ópera de um teatro ao salão do hotel onde se hospedava, fato noticiado pelo jornal The World.

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Esta pioneira transmissão de radiodifusão é anterior à de Fessenden - dezembro de 1906.

Em 1904, obteve 3 patentes nos EUA, e recomendou o uso de ondas curtas para aumentar a distância das transmissões - Marconi só as valorizou em 1916. Enquanto ele dizia que o alcance das transmissões de voz via ondas de rádio era "praticamente infinito", Marconi lançava dúvidas no ar, preservando o rentável negócio da telegrafia.

Ainda em 1904, o inventor solitário projetou a televisão (demonstrada em 1926) e o teletipo ("inventado" em 1928). De volta ao Brasil, não conseguiu apoio financeiro e foi "forçado" a abandonar a ciência. No Rio de Janeiro, solicitou 2 navios da Marinha para mostrar a sua invenção: negado. Em São Paulo, solicitou recursos ao Governo estadual para industrializar o rádio. A petição foi lida no plenário da Assembléia Legislativa, no final de 1905: negado. O país acabaria importando essas tecnologias de telecomunicações...

Nos EUA, 5 cartas patentes - inclui inventos da RCA e Mitsubishi - já citaram as 3 do Padre Landell no item Referências.

Apenas a inclusão dos seus feitos no currículo obrigatório do ensino fundamental pode, agora, reparar a injustiça histórica.