“Aconselho aos telespectadores a se afastarem imediatamente e procurarem algo mais agradável para ver”. É com esse aviso que o primeiro episódio da série começa, e que se repete por toda a primeira temporada. A frase é do misterioso Lemony Snicket, narrador sempre melancólico e obscuro, que tenta dissuadir o telespectador de que não há momentos felizes na história contada. Suas falas, porém, só nos fazem mais curiosos para saber o que acontece em seguida.

Desventuras em Série retrata os irmãos Baudelaire, Violet, Klaus e a bebê Sunny, que ficaram órfãos ao perder os pais em um misterioso incêndio. Pulando de tutor em tutor, as crianças se vêem diante de inúmeros obstáculos, em parte por causa do terrível Conde Olaf, um ator deplorável destinado à por as mãos na fortuna dos Baudelaire.

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A produção tem um roteiro fiel aos livros, como não podia ser diferente, já que o próprio Daniel Handler, escritor dos 13 romances da #Desventuras em Série sob o pseudônimo de Lemony Snicket, é também escritor e co-produtor de todos os episódio da série. Sendo assim, a escrita inteligente e direta, cheia de gracejos e humor negro é mantida, transferindo a essência dos livros para as telas.

A produção visual rica e extremamente detalhista, complementada por meio de computação gráfica, nos deixa totalmente imersos na história; um universo steampunk misturado com a vívida imaginação infantil.

Não poderia deixar de falar também sobre a atuação de Neil Patrick Harris, que conseguiu incorporar perfeitamente o papel de Conde Olaf e todos os seus trejeitos e peculiaridades. Harris equilibra com maestria ambos os lados do personagem, de cômico à ameaçador num piscar de olhos.

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A cada episódio em que ele se disfarça de outro personagem para tentar capturar os irmãos Baudelaire, junto à sua trupe de teatro e comparsas, fica evidente o brilhantismo do seu talento, rendendo algumas risadas.

A série, porém, é muito mais do que um visual fantástico e um roteiro afiado

Desventuras em Série expõe para o público como as crianças são tão vulneráveis à todo tipo de perigo e coisas terríveis que as cerca, justamente por serem tão novos e supostamente terem a obrigação de obedecer os mais velhos. Os irmãos Baudelaire passam a série inteira tentando fazer com que sejam ouvidos pelos adultos, enquanto estes estão tão cegos pela ambição, pelo orgulho ou neuroses e traumas do passado, que não dão a devida atenção ao que as crianças tem a dizer.

E os medos e preocupações que elas sentem são reais e muitas vezes óbvios. A grande imaginação e criatividade podem ser as melhores qualidades das crianças, mas elas também são sinceras e têm consciência de algo quando está errado, e os adultos certamente têm muito a aprender com elas.

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Em uma determinada cena do quarto episódio, “A sala dos Répteis Parte 2”, Sr. Poe (executor testamentário do Sr. e Sra. Baudelaire) insistentemente diz às crianças “Os adultos estão cuidando de tudo”. Ao que Violet Baudelaire, junto de seus irmãos, responde: “Os adultos não cuidarão de nada, mas nós cuidaremos.”

Os três irmãos possuem talentos e criatividade notáveis. Violet é a inventora e possui grande facilidade com equipamentos e máquinas; Klaus é o leitor que devora até os livros mais complicados sobre Leis e sempre se lembra daquilo que leu; e Sunny possui dentes extremamente fortes capazes de lapidar uma pedra. É quando os três unem as suas capacidades para se livrarem de empecilhos, e só assim, conseguir a atenção dos adultos.

A série ainda retrata as crianças sempre esperançosas diante de um obstáculo, pois para elas sempre há uma saída, ao contrário do triste Lemony Snicket, que narra os acontecimentos de uma lado mais pessimista, e do que os adultos gostam de chamar, “realista”.

Se você é um amante dos livros, com certeza vai se encantar por essa série. Caso nunca tenha lido, é a oportunidade perfeita para se apaixonar pelos contos dos Baudelaire, e quem sabe nós não podemos aprender um pouco mais com as crianças? #Neil Patrick Harris #Netflix