O danatio memoriae (condenação da memória, em latim) era uma punição imposta pelo estado romano contra traidores e outros inimigos. Seu objetivo era varrer da história o condenado, impedindo-o de ser lembrado. Outros povos da Antiguidade praticaram formas parecidas de punição. Conta-se que Heróstrato incendiou o templo de Artemis em Éfeso, cidade grega da Asia Menor, no território do que hoje é a Turquia, com o objetivo de perpetuar seu nome na história. Como punição e para desincentivar possíveis imitadores, as autoridades condenaram-no à morte e proibiram a menção a seu nome, sob pena de execução. Como, depois de quase dois milênios e meio, ainda sabemos quem foi Heróstrato, fica claro que seus algozes falharam pavorosamente.

Publicidade
Publicidade

O escritor George Orwell, em sua distopia 1984, inspirada pela ascensão dos regimes totalitários, especialmente o stalinista, levou ao máximo a ideia de um governo capaz de moldar a História a seu bel-prazer e de apagar da memória pública seus inimigos, descrevendo o regime do Big Brother ("Grande Irmão"), a quem nada escapa e cujo partido tem por lema "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado". Em uma proporção mais modesta, o jornal Correio da Manhã, sabe-se, recusava-se a publicar o nome do escritor Lima Barreto, que havia satirizado o jornal e seu dono no romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha. O autor, em seu tempo ignorado pela imprensa e cultura oficiais, é, hoje, merecidamente, tido como uma das glórias da Literatura Brasileira.

Publicidade

O colunista Leo Dias, notório por suas desavenças com #Famosos, como o cantor Zezé Di Camargo, que o chama de inimigo, e os atores Danielle Winits e André Gonçalves, que protagonizaram um barraco virtual, que terminou com ameaças de surra ao colunista e queixas na polícia, parece ser a mais nova vítima da tentativa de fingir que pessoas incômodas não existem. Em seu perfil no Instagram, ele reproduziu nota do colunista Flávio Ricco que informava que Leo Dias não podia mais ser mencionado na Record e foi duro: disse que trabalhava no único jornal (O Dia) que falava da Record Rio, seus artistas e seus produtos, lembrou que o braço fluminense da Record era solenemente ignorado pelos jornais das Organizações Globo (por razões óbvias) e arrematou dizendo que os pastores da Igreja Universal do Reino de Deus deveriam ensinar sobre gratidão aos diretores da emissora ligada à denominação evangélica. Além de sua militância na imprensa escrita, Leo Dias participa do programa "Fofocando" no SBT, rival de Globo e Record, ao lado de Mara Maravilha, Leão Lobo, Homem do Saco e Mamma Bruschetta.

Quanto à Record, talvez valesse a pena que seus dirigentes meditassem nos exemplos de Heróstrato e Lima Barreto e entendessem que, na vida real, Big Brother é só um programa... da Globo.