A paisagem linda e deslumbrante do Cerrado do Centro-Oeste foi drasticamente modificada pelo fogo desde o dia 17 de outubro.

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é marcado por labaredas e pelas chamas de sua vegetação. A aparência viçosa e verdejante cedeu lugar para árvores carbonizadas e mato queimado.

Principal porta de entrada para a Chapada, os habitantes da Vila de São Jorge se acostumam a respirar a fuligem do incêndio e, antes de contabilizarem os prejuízos, mobilizam-se para salvar seu mais precioso patrimônio natural e turístico.

Tradicional cartão postal, o Vale da Lua ficou reduzido a pedras e águas do rio São Miguel.

As trilhas dentro do parque estão fechadas para caminhadas. Ao redor delas, o céu azul mistura-se ao negro dos campos atingidos e ao cheiro de fumaça.

Mobilização e consequências

O aeroporto mais próximo da Chapada dos Veadeiros é o de Alto Paraiso, cidade mística de Goiás distante 220 km de Brasília, que atrai turistas na busca de uma rotina de vida mais desacelerada. O pequenino aeroporto tem desempenhado um papel essencial na estratégia e operacionalização do combate ao fogo. Aeronaves confundem-se com a urgência e com o desespero de moradores locais, brigadistas e voluntários. Todos estão levando e trazendo equipamentos contra incêndio e, claro, transportando água.

A prioridade está centrada nas regiões onde há presença de casas e habitações ameaçadas pelo fogo. E, por falar em presença, o Turismo foi uma das atividades que já sentiu o reflexo da tragédia.

Os melhores vídeos do dia

Visitantes cancelaram suas reservas e o próprio Parque Nacional já avisou que não tem data certa para reabrir aos turistas e aventureiros. A maioria da população da Chapada dos Veadeiros sobrevive direta ou indiretamente do turismo.

Fauna: comoção

Em relação aos animais que vivem na Chapada dos Veadeiros, não existem dados definitivos, porém é indiscutível a certeza de grande impacto negativo na fauna local.

De acordo com relatos, nada é mais doloroso e chocante que os bandos de araras-azuis gritando e voando pelo ar ruidosamente, percebendo a ameaça que o fogo traz para os seus filhotes e seus ninhos.

Esse belo parque de Goiás abriga 34 espécies de animais, sendo que a metade delas está com sério risco de extinção. Entre os animais que habitam a Chapada dos Veadeiros estão o lobo-guará e a onça-pintada.

O trabalho conjunto das brigadas de incêndio, bombeiros, agentes públicos e voluntários tem feito seu papel de maneira efetiva. Eles garantem que boa parte dos focos já foram apagados.

Na última sexta-feira, 27/10, a tão esperada chuva apareceu no Parque, amenizando o drama sofrido há dez dias. Porém, um raio fez aparecer novo foco dentro da área natural.

Outra região vitimada pelo fogo é a Serra do Roncador, localizada na cidade de Cavalcante (GO), próxima à divisa com Tocantins. Lá, o incêndio é classificado como fora de controle. Equipes estão trabalhando no local.

Ampliação e suspeita de crime

Segundo os dirigentes do Parque Nacional, o fogo terá fim quando as chuvas vierem e a meteorologia é otimista em sua previsão: os próximos dias serão de muitas nuvens no centro do Brasil, área geográfica da Chapada dos Veadeiros. Há boa possibilidade de chuvas fortes acompanhadas de rajadas de vento. A previsão alerta para a ocorrência de chuvas com raios.

O consenso daqueles que participam do mutirão e dos habitantes não deixa margem para dúvidas: o incêndio foi intencional, significando que houve origem criminosa. O caso é investigado pela Polícia Federal e a principal razão para a suspeita está baseada na ampliação da área do parque. Em junho, um decreto federal autorizou o aumento dos 65 mil hectares para 240 mil hectares. É possível que moradores tenham se sentido incomodados, pois se antes não estavam dentro da preservação do parque, passaram a compô-lo.

Tocar fogo em matas é considerado crime na legislação ambiental brasileira e sua pena varia de dois a quatro anos. A situação presenciada na Chapada adiciona o recorde nas estatísticas de incêndios das florestas do Brasil em 2017.