É muito provável que o Brasil não tenha nem seu Grande Prêmio, nem mesmo um representante na Fórmula 1, a partir do ano que vem. O GP tupiniquim está no calendário de 2017, mas, provisoriamente, e só mesmo um aporte bilionário do governo federal poderá salvar a etapa brasileira. Antes de mais nada, nunca é demais lembrar que o Banco do Brasil, que registrou perdas de quase 27% só nos três primeiros trimestres deste ano, em relação ao mesmo período de 2015, já injetou nada menos que R$ 90 milhões para garantir um assento ao brasiliense Felipe Nasr, na equipe Sauber. Se o leitor está assustado com este valor, saiba que ele não representa nada comparado ao que os detentores dos direitos da F1 cobram em seus contratos.

Para sediar uma etapa da categoria máxima do automobilismo mundial, é necessário assinar um acordo de dez anos que, somado aos gastos com manutenção, reformas e adaptações do circuito, totaliza 600 milhões de libras esterlinas – o equivalente a quase R$ 2,6 bilhões. O pior para o Brasil, que tem contrato para realização do GP em Interlagos até 2020, é que há um escalonamento dos direitos, que irão de 33,2 milhões de libras (R$ 142,4 milhões) a 40,3 milhões de libras (R$ 173 milhões), nos próximos três anos. Como o evento movimentou pouco mais de R$ 250 milhões nas suas últimas três edições, qualquer um vê que a conta não fecha.

Correndo por fora, há ainda um imbróglio entre a Rede Globo, que tem a exclusividade dos direitos de transmissão da F1, no Brasil, e a Formula One Management (FOM).

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É que a compra de quase 20% dos direitos comerciais da F1 por parte do grupo norte-americano Liberty Media, bem como sua promessa de aquisição completa até abril do ano que vem, deve determinar uma grande transformação na categoria. A TV aberta deixaria de ser a mídia principal para veiculação das provas, que passaria a ser a internet. Como o leitor pode imaginar, há muito dinheiro envolvido nisso.

De volta a Nasr, a própria Sauber jamais escondeu que a contração do brasileiro, em 2014, foi na verdade a venda de uma vaga na equipe.

Renault

“A F1 é desafiadora, financeiramente, principalmente para as equipes privadas – que são aquelas que não têm o aporte de grandes montadoras. Claro que você leva em conta o dinheiro, além do talento do piloto. Senão, o time não consegue sobreviver”, resume a chefe de equipe da Sauber, Monisha Kaltenborn. Não foi à toa que, no final de agosto, quando o Banco do Brasil anunciou uma revisão de suas cotas de patrocínio internacionais, Nasr correu ao recém-empossado Michel Temer, pedindo sua intervenção junto à Renault, para garantir sua vaga no grid, em 2017.

A montadora francesa, que tem seu próprio time, pediu R$ 60 milhões anuais, mais do que a própria Sauber cobra do brasileiro.

Obviamente que um acordo com o governo federal poderia beneficiar as atividades da Renault no país, na mesma proporção da cifra acima, mas isso não salvaria nem a carreira de Nasr e nem o GP do Brasil.

A verdade é que Nasr ficou na promessa, basta ver seu currículo: títulos, só os da Fórmula BMW europeia, em 2009; e da F3 Inglesa, em 2011. Felipe Massa, por exemplo, chegou à F1 depois de vencer a Fórmula Chevrolet brasileira, em 1999; as Fórmulas Renault 2000 europeia e italiana, em 2000; além da F-3000, em 2001. Comparar Nasr a Ayrton Senna, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi e Rubens Barrichello seria até deselegante, mas o pior não é depositar esperanças em um piloto mediano, mas saber que não há, em nenhuma das categorias de acesso, um único brasileiro que venha se destacando. Sem um representa e sem GP, a carreira do Brasil na F1 estaria morta pelos próximos 20 anos. Isso, se já não o estiver para sempre.