A gravação de um áudio enviado por uma mãe através do WhatsApp sobre um trabalho escolar a ser realizado por seu filho gerou onda de ódio entre conservadores. Segundo a mãe, o Colégio Pinheiro Guimarães, no Rio de Janeiro, estaria impondo aos meninos que fossem apresentar uma feira cultural vestindo camisa rosa e usando batom, para ganhar nota.

O áudio chegou a ser compartilhado pelo deputado Eduardo Bolsonaro, fazendo com que a instituição sofresse ameaças e levando o grupo de alunos, que havia elaborado um trabalho sobre identidade de Gênero, a suspender sua apresentação.

De forma imprudente, o deputado não apagou o número de telefone da professora responsável pelas turmas que participariam da feira cultural, além de classificar o tema erroneamente como "ideologia de gênero", associando-o ao sexo promíscuo e rebaixando o caráter educacional do debate - o qual está perfeitamente adequado às matérias de biologia e de sociologia e que propicia justamente uma reflexão importante envolvendo dois aspectos do conhecimento equivocadamente encarados como opostos.

A informação errada foi transmitida pela própria mãe: na verdade, a decisão por elaborar um projeto sobre gênero foi tomada por alunos que tiveram a ideia de abordar o conceito de "identidade de gênero" para a feira cultural do colégio particular. Não houve obrigação alguma para que meninos se vestissem de rosa e usassem batom, figurino que foi também decidido pelo grupo de alunos em questão, a fim de ilustrar sua pesquisa - nesse caso, os garotos adotariam vestes associadas ao feminino e as meninas, ao masculino, vestindo azul.

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Educação LGBT

A escolha das roupas seria apenas uma maneira de demonstrar como características associadas ao gênero são artificialmente construídas sem qualquer embasamento biológico, uma vez que roupas e maquiagem são acessórios que podem ser usados por qualquer indivíduo, da forma que ele bem entender.

Rapidamente, a intenção dos jovens foi distorcida e transformada em "doutrinação" por moralistas tomados pela histeria coletiva em que se transformou a narrativa da "ideologia de gênero".

O ator Carlos Vereza, por exemplo, chegou a compartilhar que a escola havia obrigado alunos a usar batom para terem sua nota aumentada e adicionando, ainda, que alguns professores estão tirando os artigos "o" e "a" das frases, colocando o "x" no lugar, "brincando de Deus e mudando toda a biologia". Em encontro com o presidente, Vereza utilizou essas informações distorcidas para pedir que a propagação da "ideologia de gênero" fosse impedida por Temer.

A postura sensata dos/as alunos/as que compõem o grupo responsável pelo trabalho escolar contrasta com a precipitação dessa patrulha moralista que se formou nos últimos tempos. Em entrevista para o jornal El País, Marina e Bruna, ambas de 17 anos, explicaram que o objetivo da proposta era o de explicar a realidade de pessoas transexuais, que não se identificam com o gênero que foram designadas ao nascer e de como elas são invisibilizadas pela sociedade.

Outro colega que participa do grupo, João Pedro, de 14 anos, revelou que, no Facebook, pessoas ameaçaram ir até a feira cultural para destruir a apresentação. Bruna também comentou que houve ameaças pessoais violentas à diretora da escola e que a preocupação com a integridade de todos/as levou à mudança do tema do trabalho.

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