O marginal que iniciou sua vida no crime, aos 9 anos, junto de outros trombadinhas, no centro de São Paulo, tornou-se assaltante de bancos e hoje, aos 49 anos, é o líder da maior organização criminosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), com ramificações em outros países da América Latina como Bolívia, país de origem de seu pai, e Paraguai, por exemplo.

Nascido na Vila Yolanda, em Osasco, região metropolitana da capital paulista, no dia 13 de abril de 1968, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, nega ser o principal chefe da quadrilha paulista e diz que é o governo do Estado de São Paulo quem o nomeia dessa forma apenas para garantir que a liderança do PCC está presa o que, na sua afirmação, não é verdade.

O apelido "Marcola" vem dos tempos em que o criminoso, assim como a maioria dos trombadinhas do centro paulistano, cheirava cola de sapateiro.

Preso pela Delegacia de Roubo a Bancos do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais) da Polícia Civil de São Paulo, há 18 anos, ao ser reconhecido quando utilizava um telefone público; atualmente cumpre suas penas no presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau, a 611 quilômetros da capital.

Segundo investigações da polícia paulista, foi Marcola quem determinou o maior ataque da história à força pública do estado, em maio de 2006, quando foram mortas 45 pessoas sendo 23 policiais militares, oito agentes penitenciários, sete policiais civis, quatro cidadãos comuns e três guardas municipais. Na ocasião, bandidos atiraram em policiais e viaturas estacionadas ou em ronda pelas ruas de São Paulo, além de atirar coquetéis molotov em delegacias de polícia e fóruns da cidade.

Dois meses depois, entre julho e agosto, a capital registrou novos ataques à agências bancárias, ônibus e estabelecimentos comerciais que acabaram incendiados.

Diante de tantas "virtudes" estrategistas, "cagueta" ou "dedo duro" seriam dois adjetivos que pouco caberiam em Marcola. Até porque um delator, no submundo do crime, tem como sentença a pena de morte. Mas o chefão do PCC colaborou com a polícia, como informante, e entregou dois de seus parceiros sendo um deles, um amigo de infância.

A revelação está no livro Laços de Sangue, A História Secreta do PCC (Editora Matrix), escrito pelo promotor do Ministério Público do Estado de São Paulo Márcio Sérgio Christino e o jornalista Cláudio Tognolli.

Segundo a publicação, no início dos anos 2000 Marcola informou a policiais os números dos telefones de José Márcio Felício, o Geleião, e de Dionísio César Leite, o Cesinha, membros fundadores do Primeiro Comando da Capital e que, até então, estavam acima dele na hierarquia da organização.

Mesmo presa a dupla fazia uso de seus telefones celulares e, após a delação de Marcola, teve suas linhas grampeadas e acabou sendo transferida para a Penitenciária de Presidente Bernardes (579 quilômetros de São Paulo), no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), onde o detento fica em isolamento com direito a apenas uma hora de banho de sol por dia. Com Cesinha e Geleião fora do comando, Marcola assumiu o controle juntamente com o traficante Sandro Henrique Silva Santos, outro na linha de sucessão dos maiores membros do PCC, mas que acabou assassinado meses depois, ficando a liderança do PCC apenas a cargo de Marcola.

Ser informante da polícia trouxe um revés para a organização que Marcola tanto queria liderar pois as escutas promovidas a partir de suas delações acabaram identificando, e desmontando, cerca de 30 centrais telefônicas do partido que possibilitavam a comunicação, de dentro dos presídios, entre seus integrantes.

Com o fim da possibilidade de troca de telefonemas entre si, a saída para os criminosos foi a contratação de advogados que, ao terem acesso a eles dentro das unidades prisionais, recebiam e entregavam seus recados, orientações e ordens a integrantes fora das cadeias, esquema nomeado pela polícia como "Sintonia das Gravatas" e que também acabou desmanchado, em 2006, na operação Ethos.

A partir da tomada da gestão por Marcola o PCC passou a usar estratégias como se fosse uma empresa. Com os presídios sob o controle da organização, a ação seguinte foi ganhar a totalidade das ruas. Para a logística e distribuição de drogas nos pontos de tráfico o criminoso determinou que traficantes rivais se unissem ao seu partido ou, do contrário, teriam suas "bocas de fumo" tomadas, com uso de violência, por seus comandados.

Enquanto assistiam o ex-cúmplice ganhar, cada vez mais, notoriedade entre os membros do PCC, a dupla fundadora da organização ia sucumbindo em seus isolamentos no RDD de Presidente Bernardes.

Mas, em 2002, Geleião resolveu fazer exatamente como fez Marcola e assinou um acordo de delação premiada para vingar a traição de seu ex-parceiro de infância chegando, inclusive, a depor como testemunha de acusação contra ele. Suas denúncias resultaram nas prisões de todos os criminosos ligados a Marcola e que lideravam o partido do lado de fora das muralhas dos presídios e cadeias públicas do estado. Diante da gravidade de suas declarações sua integridade física acabou, obviamente, colocada em risco. Por conta disso, foi transferido para um presídio federal de segurança máxima.

Depois de ser expulso do PCC pela acusação de ser mandante do assassinato de Ana Maria Olivatto Herbas Camacho, de 45 anos, esposa e advogada de Marcola - crime ocorrido na cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, no dia 23 de outubro de 2002 - e que colaborou com as informações fornecidas à policia, Cesinha fundou o Terceiro Comando da Capital mas, em agosto de 2006, preso na Penitenciária 1 de Avaré (a 268 quilômetros da capital paulista), acabou assassinado, supostamente, por ordem de Marcola.

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