Não importa o que o presidente Michel Temer diga, não importa o que as manchetes dos jornalões – que, hoje, vivem das migalhas publicitárias do governo – estampem: a Embraer já é propriedade da Boeing e não existe fusão ou joint venture. A boa e velha Matemática mostra, de forma insofismável, que se trata de uma operação de aquisição, até porque a Boeing tem uma receita (US$ 94,5 bilhões, em 2016) quase 20 vezes maior que a da Embraer (US$ 5,9 bilhões). O que está por trás do negócio não é, apenas e tão somente, a consolidação de duas das mais importantes companhias do setor aeronáutico, mas a perversão dos oligopólios.

A compra da Embraer pela Boeing é, na verdade, uma imposição deste mercado, isso desde que a arquirrival da gigante norte-americana, a francesa Airbus, comprou o programa C-Series da canadense Bombardier, que é a principal contendora da Embraer.

Para quem não sabe, Embraer e Bombardier atuam no segmento de médio alcance, produzindo jatos com capacidade para 100 a 149 passageiros, que têm um mercado global estimado em 6.300 unidades, nos próximos 20 anos. Só com as vendas destas aeronaves, o setor vai movimentar mais de US$ 250 bilhões – o equivalente a quase R$ 830 bilhões atuais.

Já a Boeing e a Airbus atuam em segmentos bem superiores, com capacidades para até 414 passageiros e alcances de mais de 8.500 milhas náuticas, mais de três vezes maiores que as 2.800 milhas náuticas do novíssimo Embraer 190-E2, de segunda geração, que só começa a voar em abril.

Antes da manobra da Airbus, Embraer e Bombardier brigavam pela liderança do mercado de jatos de médio porte, para rotas regionais, sem interferência de cima. Ainda antes de a companhia francesa adquirir o programa CSeries, a Boeing processou a Bombardier – e venceu a disputa nos tribunais – por ela receber subsídios do governo canadense para venda de suas aeronaves, nos Estados Unidos.

Com a vitória judicial, o governo norte-americano passou a taxar a importação dos modelos canadenses em 300%, pondo fim à concorrência desleal, nos EUA – só a Delta Airlines deixou de comprar mais de 70 jatos da Bombardier, nesta jogada.

E por que a Airbus entra no jogo?!?

Em outubro, a gigante francesa fechou uma parceria com a Bombardier, firmada com a compra de 50,01% do programa CSeries, para produção a produção dos jatos CS100 (de até 133 lugares) e CS300 (de até 160 lugares) na sua fábrica que fica no Estado norte-americano do Alabama.

Com a produção local, as aeronaves canadenses deixam de ser sobretaxadas, driblando a questão dos subsídios do governo canadense. A malandragem da Airbus provocou a Boeing, que olhou para a Embraer e enxergou uma oportunidade de ampliar seu portfólio de aeronaves e dar o troco na arquirrival. Obviamente, a compra pela companhia norte-americana assustou os brasileiros que, além de perderem a soberania sobre a Embraer, também podem perder seus empregos e sua governança na empresa, mas não há outra alternativa a não ser o subjugo da gigante.

É que depois de a Bombardier se entregar para a Airbus que, diga-se de passagem, não colocou um único centavo na negociação, a Embraer não tem para onde correr. A questão política que, como sempre, exibe mais um teatro do que, exatamente, ações concretas não tem a menor importância e se, para não se indispor com a cúpula militar, o presidente Michel Temer descartou a venda da Embraer, para os executivos da Boeing ele fez papel de palhaço. Afinal, Temer não tem nenhuma influência sobre o controle da empresa e a tal “golden share” de que a Rede Globo vem falando é uma balela, que não impede o negócio, caso assim queiram seus maiores acionistas.

Os oligopólios têm suas regras e, agora que a Bombardier está sob as asas da Airbus, a Embraer precisa se submeter à Boeing – isso, se não quiser ficar para trás.

Vingança e defesa

A verdade que os neoliberais não enxergam é que, encabrestada pela Airbus, a Bombardier ganha competitividade e a entrega da Embraer para a Boeing deixa de ser uma opção, um direito, para se configurar na única saída para a empresa seguir em frente, para mitigar seus acionistas – mais de 70% das ações da empresa estão nas mãos de investidores internacionais, que não têm compromisso com a geração de empregos, mas sim com o lucro.

Os empregos – hoje, são 16 mil funcionários – que serão perdidos, com a realocação da produção, o seriam com a queda nas vendas, com o enfraquecimento da marca e a perda de valor da companhia. Sem se sujeitar à Boeing, a Embraer não sobreviverá. Se sujeitando a ela, a engenharia nacional mingua, dá adeus à transferência de tecnologia e vê seu centro de decisões ir para os EUA.

E nunca é demais frisar: não existe essa fantasia de que a Embraer é um orgulho brasileiro, porque, fora do campo da ideologia, trata-se de uma empresa de capital aberto e controlada por acionistas estrangeiros. O único caráter nacional da companhia, hoje, é a produção doméstica de suas aeronaves.

A compra da Embraer também tem um viés de vingança, afinal a Boeing dá o troco no governo brasileiro que preteriu seu caça, o F/A-18E Super Hornet, em virtude do Gripen NG, da sueca Saab. E neste campo militar não podemos esquecer que o KC-390 (projetado e desenvolvido no Brasil) é, hoje, o jato de transporte militar e reabastecimento em voo mais qualificado do mundo. Com capacidade para 80 soldados ou 26 toneladas de carga útil, ele entre em operação nos próximos meses e não seria uma má aquisição para os norte-americanos – se fosse no pacote. Há quem diga que a Boeing só tem interesse nos jatos comerciais da Embraer, mas estamos falando da segunda maior corporação do setor de defesa, em nível mundial, e maior exportador dos EUA.

A Boeing ainda é a maior fornecedora do Pentágono e, para quem conhece sua história, a maior estatal norte-americana, disfarçada de multinacional. Não há evidência maior da compra da Embraer do que o fato de a fábrica brasileira de peças do Saab Gripen NG, anunciada há quatro anos, não ter saído do papel – enquanto dormíamos em berço esplêndido, sua inexistência já dava sinais de reviravolta neste caso. Portanto, a Embraer já foi picada pelo escorpião e, agora, não adianta resistir. É respirar fundo para o veneno entrar mais rápido na corrente sanguínea e “favoritar” este texto porque, no futuro, o leitor verá que tudo o que está escrito aqui se materializará como fato.

Infelizmente...

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