Marcia Barbosa, de 58 anos, é professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, além de ativista contra o assédio em universidades, violência da qual ela própria foi vítima no passado. Em entrevista para a Folha de S. Paulo, publicada no domingo, 27, Barbosa alerta para como as instituições não estão preparadas para lidar com casos de assédio sexual, que são, em sua maioria, abafados.

De acordo com a pesquisadora, é comum que testemunhe, em suas palestras pelo país, mulheres vindo lhe procurar reservadamente para relatar que foram vítimas de algum tipo de assédio dentro das universidades e que uma das maiores razões para não denunciarem o fato publicamente é o medo da retaliação e de ficarem marcadas, tendo suas carreiras prejudicadas.

A descrença generalizada, principalmente quando o acusado é um professor doutor, faz com que até mesmo os demais professores desconfiem da vítima, como se seu colega não fosse capaz de cometer tal ato.

Estudos que tragam números precisos são poucos. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Avon e o Data Popular em 2015 apontou que 67% de alunas da graduação ou pós relataram ter sofrido algum tipo de agressão, sexual, psicológica, física ou moral, por parte de um professor, técnico administrativo ou estudante, sendo 56% das entrevistadas vítimas especificamente de assédio sexual, tendo 28% delas enfrentado violência física.

Barbosa explica que, atualmente, um número maior de mulheres tende a verbalizar o ocorrido e é possível que as denúncias se intensifiquem, levando a um escândalo que pode minar a credibilidade das universidades. Sendo assim, há uma necessidade urgente de as instituições se voltarem para o problema, criando regulações formais para as relações entre os indivíduos que atuam no ambiente acadêmico.

Um caso marcante e que ganhou visibilidade foi o de um professor da Faculdade de Odontologia da universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), demitido em fevereiro de 2017, após ser denunciado por agressão e assédio sexual a uma aluna do curso.

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Educação

A estudante, de 23 anos, efetuou uma denúncia em junho de 2016, relatando que teria sido trancada em uma sala e prensada contra a parede pelo docente, de 61 anos, o qual disse que ela, uma reles acadêmica, não teria lugar entre doutores; ele também já teria tentado beijá-la em outra ocasião. Depois do ocorrido, o professor passou a assediá-la moralmente, ameaçando-a de reprovação. Em depoimento à Polícia Militar, a vítima disse ainda que teve conhecimento de outros assédios cometidos pelo mesmo indivíduo contra outras alunas e que apenas formalizou a denúncia estando prestes a se formar, por medo de ser impedida de completar a graduação.

A própria UFJF lançou uma campanha com o slogan "A universidade é pública. Meu corpo, não", após denúncias de alunas de diversos cursos, em 2016, contra o abuso na universidade, que conta com a Ouvidoria Especializada da Diretoria de Ações Afirmativas, responsável por acolher as vítimas e lhes prestar assistência.

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