Pela primeira vez, desde 1989, a paralisação de uma categoria levou o Brasil à beira da instalação de caos em diversos setores da sociedade: aviação, saúde, alimentação, abastecimento de combustíveis e gás GLP, e educação.

Em todo o país aeroportos cancelaram voos por falta de combustível para o abastecimento de aeronaves, escolas suspenderam aulas, hospitais adiaram cirurgias, clínicas viram seus estoques de insumos para o tratamento de pacientes renais, por exemplo, chegarem a níveis críticos ou, simplesmente, zerarem, mesma situação caótica vivida por bancos de sangue e leite materno.

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A última vez que os brasileiros viveram momento delicado com uma greve assim aconteceu no Governo José Sarney (então PMDB) entre os dias 14 e 15 de março de 1989. O movimento, liderado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) e CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) fez parar completamente as atividades econômicas em 12 capitais: Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Aracaju, Porto Alegre, Manaus, João Pessoa, Recife, Vitória, Maceió, São Luís e Belém.

Porém, nas demais capitais brasileiras também houve paralisações parciais como no transporte coletivo na cidade de São Paulo, por exemplo, quando ônibus da então CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) deixaram de circular nos dois dias.

Naquele ano a inflação acumulada atingiu a preocupante marca de 1.783% e os movimentos grevistas exigiram do governo a negociação das perdas salariais e do poder aquisitivo dos trabalhadores, vitimados diretamente pelo congelamento de preços e salários através do Plano Verão.

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Em apenas dois dias o prejuízo causado pela paralisação foi estimado em US$ 1,6 bilhão.

Depois de 1989 ainda houve mais duas convocações de greve geral: uma em 1991 e outra, em 1996. A primeira reivindicava a reposição mensal de perdas salariais e, para garantir o sucesso do movimento, manifestantes paralisaram o transporte público em todo o país. Mas o resultado não foi satisfatório e houve a ruptura do protesto no segundo dia.

A última greve geral aconteceu no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 21 de junho de 1996.

Com o propósito de combater a Política econômica de FHC, a paralisação, que recebeu adesão apenas dos metalúrgicos do ABC paulista, fracassou.

Os protestos realizados nestas duas últimas semanas de maio já causaram, e ainda provocarão, efeitos drásticos incomparáveis a qualquer outra ocasião em que foram realizadas greves no território nacional. A gasolina, por exemplo, que antes da paralisação era comercializada a R$ 3,89 em média, no Estado de São Paulo, já é vendida por R$ 4,39 o litro.

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Gêneros alimentícios e gás de cozinha também sofreram reajustes e a cadeia produtiva, certamente, repassará aos consumidores os prejuízos com a suspensão das atividades em suas fábricas e com o descarte de toneladas de matéria prima perecível.

No início dizia-se que eram os trabalhadores autônomos, não representados por entidades, como sindicatos, que estavam liderando os movimentos de paralisações em todo o Brasil. Na pauta, as reivindicações principais eram o fim da cobrança de pedágios em rodovias federais, estaduais sob responsabilidade de consórcios privados e a redução de impostos incidentes sobre o óleo diesel (ICMS, PIS e Cofins).

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Iniciada na penúltima segunda-feira de maio, dia 21, a greve recebeu atenção especial do presidente Michel Temer que, quatro dias depois, fechou um acordo com representantes da classe onde acatou parte das demandas dos caminhoneiros em troca da suspensão do movimento de paralisação por, pelo menos, 15 dias até que as partes voltassem à mesa para uma nova rodada de negociações.

Primeiro acordo

Na ocasião, os ministros Carlos Marun (Secretaria de Governo), Eliseu Padilha (Casa Civil) e Eduardo Guardia (Fazenda) anunciaram que haveria a redução de 10% no preço do óleo diesel e que o valor de R$ 2,10 - nas refinarias - permaneceria fixo por 30 dias, sendo reajustado apenas uma única vez a cada mês. Ainda segundo o trio, os custos com a redução seriam rachados entre Petrobras e União.

Outras decisões que favoreceram os caminhoneiros foram: a não reoneração da folha de pagamento do setor de cargas, contratação de profissionais autônomos para a prestação de serviços de transporte à Petrobras, reedição da tabela de fretes a cada 90 dias, suspensão das multas aplicadas em virtude dos bloqueios nas estradas e extinção de ações judiciais que contestavam o movimento grevista.

Alegando não sentir-se representada por sindicatos e associações presentes na reunião - que durou 7 horas e foi realizada no Palácio do Planalto, dia 24 -, a classe permaneceu bloqueando rodovias em todo o país, ignorando o ajustamento anunciado pelos ministros Marun, Padilha e Guardia.

Na sexta-feira (25), diante da negativa dos caminhoneiros em suspender os bloqueios em 24 Estados, Michel Temer determinou a intervenção de tropas federais para que os trabalhadores cumprissem o acordo, feito no dia anterior, e realizassem desobstruções nas rodovias tomadas pela categoria. O presidente também pediu ajuda aos governadores solicitando-lhes o emprego das polícias estaduais para que as estradas fossem liberadas.

No entanto, as forças militares apenas "organizaram" os bloqueios obrigando os motoristas a retirarem seus caminhões das faixas de rolamento das rodovias e, assim, estacionando-os no acostamento e em recuos ou pontos de encontro. Destacamentos do Exército Brasileiro e contingentes militares estaduais garantiram escoltas de caminhões tanque de combustíveis e de transporte de medicamentos.

Segundo acordo

Diante da pressão com a continuidade dos bloqueios em todo o país, Michel Temer anunciou, na noite de domingo (27), novas propostas que, segundo o Planalto, colocariam fim na greve dos caminhoneiros.

Além de manter todos os tópicos do primeiro acordo o Presidente da República comunicou, em rede nacional, o congelamento da redução de R$ 0,46 no preço do óleo diesel, direto na bomba, por dois meses. Na proposta anterior o período era de apenas 30 dias. Segundo Temer o desconto é correspondente ao fim da cobrança do PIS/Cofins, e da Cide, sobre o combustível.

O estabelecimento de um valor mínimo para o frete; a isenção da cobrança de pedágio para eixos suspensos em todas as rodovias do Brasil (federais, estaduais, municipais e sob concessões à iniciativa privada); o redirecionamento de, no mínimo, 30% dos fretes da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) a motoristas autônomos; e o estabelecimento de uma tabela mínima de frete foram outras medidas adotadas pelo Planalto para colocar fim na situação de caos que, até então, já durava uma semana com o bloqueio de estradas, falta de combustíveis em postos de todo o país, supermercados desabastecidos, animais mortos por falta de ração, hospitais e clínicas com atendimento suspenso por não terem remédios e insumos em seus estoques, entre outros pontos que prejudicaram, e muito, milhões de cidadãos brasileiros.

Com a publicação das medidas em edição extra do Diário Oficial, ainda na noite daquele domingo, o presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) José Fonseca Lopes deu declaração de que "tudo havia sido definido de acordo com as demandas da categoria" e que os caminhoneiros já podiam "seguir em frente", retomando suas atividades. Não foi o que aconteceu.

Na manhã da segunda-feira (28) ainda havia bloqueios em grande parte do país. Entretanto, o movimento foi perdendo força, gradualmente, especialmente com denúncias de que estavam ocorrendo influências políticas com interesse de que a greve não fosse encerrada. Na quarta-feira (30), véspera do feriado nacional católico de Corpus Christi, nenhuma rodovia estava interditada total ou parcialmente, restando apenas os reflexos com longas filas em postos de abastecimento de combustíveis e supermercados com prateleiras vazias, por exemplo.

R$ 20 bilhões é o valor da conta que, como sempre, será paga pela nação: R$ 10 bi com o prejuízo à economia durante os 10 dias de greve e mais R$ 10 bi para custear as concessões de Temer aos caminhoneiros.

Ameaça de nova paralisação

Na quarta-feira (30),, o presidente Michel Temer sancionou a proposta que regulamenta a reoneração da folha de pagamento para 28 dos 56 setores da economia brasileira o que, na prática, significa aumento de impostos. Segundo cálculos do governo, dos R$ 13,5 bilhões que a União deixará de arrecadar com as concessões aos caminhoneiros, R$ 4 bilhões virão da reoneração.

No mesmo texto estava a proposta de taxa zero para PIS/Cofins sobre o óleo diesel, reivindicação da categoria que foi atendida, segundo Temer, com o desconto de R$ 0,46 no litro do combustível. Porém, o presidente vetou o projeto, contrariando o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Em razão disso passaram a circular, na quinta-feira (31), mensagens atribuídas a caminhoneiros que, segundo os áudios, ameaçam retomar a paralisação a partir das 0h de segunda-feira (4).

No comunicado, os supostos trabalhadores dizem que, desta vez, apenas ambulâncias, carros funerários, de transporte de medicamentos, oxigênio hospitalar e cargas vivas poderão circular; os demais serão bloqueados até que novas reivindicações sejam acatadas pelo Governo Federal como a redução nos preços do etanol, gasolina, gás natural veicular, gás de cozinha e, mais uma vez, óleo diesel.

Apesar dos milhares de compartilhamentos, a informação não foi confirmada por nenhuma entidade que defende a categoria dos caminhoneiros em todo o país e, certamente, trata-se apenas de mais uma Fake News. Fato lamentável diante de tantas incertezas e estresses vividos por toda a nação nas duas últimas semanas.

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