Desde o início do processo de isolamento social, a frase que mais tem se repetido é “fique em casa”. No entanto, em um país com tantas desigualdades e com um déficit habitacional tão grande, muitos não possuem a menor condição de seguir esse conselho.

Muito antes de toda a crise da Covid-19 assolar o mundo, impactando diretamente os mais pobres, que a Organização Não-Governamental Habitat Brasil busca, através de campanhas e parcerias, dar acesso à moradia para as pessoas mais vulneráveis, porém todos esses problemas também afetaram os trabalhados da ONG, que buscou novas soluções e desenvolveu novas iniciativas, como a construção de pias comunitárias, para seguir dando apoio a centenas de famílias.

Em entrevista exclusiva concedida à Blasting News, o diretor-executivo da Habitat Brasil, Mário Vieira, fala sobre como a ONG lidou com os problemas da pandemia e expõe a maneira dramática como a questão da precariedade da habitação afeta grande parte da população.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

Blasting News: Como o coronavírus impactou diretamente na Habitat Brasil? Houve queda de doações?Mário Vieira:

Mário Vieira: Logo no início da quarentena, percebemos que o impacto da pandemia ia ser grande e devastador nas comunidades vulneráveis onde atuamos. Portanto, nos mobilizamos para captar recursos e apoiar as famílias que mais precisam de ajuda nesse momento. Em março, lançamos a campanha de financiamento coletivo #EspalheSolidariedade com o objetivo de arrecadar doações para a distribuição de kits com cestas básicas, itens de higiene e produtos de limpeza para essas famílias.

A campanha foi um sucesso.

Arrecadamos pela plataforma de crowdfunding R$ 137 mil, e esse valor ainda foi triplicado por empresas parceiras da Habitat Brasil. Ao final, conseguimos entregar esses kits para mais de 5.600 famílias de 23 comunidades espalhadas pelo país.

Depois dessa campanha, lançamos uma nova, mas dessa vez com o intuito de apoiar essas comunidades a se proteger do Coronavírus de forma coletiva.

A campanha #UmaMãoLavaOutra está no ar e pretende instalar 100 pias comunitárias em comunidades e periferias de todo Brasil, para que os moradores possam lavar as mãos todos os dias.

Sobre as ações sociais que a Habitat Brasil desenvolve, o que mudou ou deixou de ser feito nesse período de isolamento social?

Nós trabalhamos muito próximos às famílias e neste momento não podemos colocá-las em risco. Toda nossa equipe está trabalhando de forma remota, em suas casas. Nossas ações de melhorias habitacionais foram paralisadas e estamos monitorando a situação para definir o melhor momento para retornar. Porém, já definimos que ao retornar com nosso trabalho em campo, nossas atividades estarão voltadas às melhorias que impactam diretamente na diminuição da contaminação pelo coronavírus.

As obras serão principalmente de acesso à água (instalação de reservatórios e revisão de instalação hidráulica), reformas de banheiros (para garantir a higiene), construção de cisternas urbanas e rurais, separação de espaços e melhoria das condições de ventilação das moradias, entre outros serviços.

Uma crise como a que estamos passando nos obriga a se reinventar. O que a pandemia ensinou para a Habitat Brasil e quais soluções a organização passou a adotar nesse período?

Temos conseguido expandir nossas atividades por meio de uma rede de parceiros locais –executores e organizações sócias– que têm a causa da habitação como prioridade. Estamos priorizando, neste momento, ações coletivas que beneficiem a comunidade como um todo, como a instalação das pias comunitárias e pontos comunitários de higiene.

Dessas soluções encontradas quais a que tendem a permanecer mesmo após o fim da pandemia?

Iremos priorizar ações relacionadas ao acesso à água e às condições de saneamento em comunidades precárias e territórios periféricos das cidades onde atuamos.

Quais novas ações a Habitat Brasil passou a desenvolver exclusivamente por conta da pandemia?

Habitat para a Humanidade Brasil não tinha histórico de atendimento emergencial como a distribuição de alimentos, kits de higiene pessoal e de limpeza. Porém, a gravidade da situação nos mostrou que era preciso agir dessa forma e mobilizar nossos recursos para ajudar quem ficou desassistido por outros programas. A instalação das pias veio como uma segunda etapa de trabalho, beneficiando a população das comunidades onde atuamos como um todo, antes do retorno para o trabalho individual com cada família.

Quais foram os principais ensinamentos que a pandemia deixou para a Habitat Brasil e para os brasileiros?

Para os brasileiros, expôs de maneira dramática como a questão da precariedade da habitação afeta grande parte da população. De acordo com o IBGE, há no Brasil pelo menos 5,1 milhões de famílias vivendo em moradias precárias em comunidades e aglomerados subnormais. Para a Habitat Brasil, mesmo em um período de dificuldades, com uma equipe profissional e comprometida, podemos fazer sempre mais em benefício de quem mais precisa.

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