O leitor mais atento já deve ter percebido que as montadoras agem estrategicamente, em conluio, controlando os movimentos do mercado de modo a encurralar o consumidor. A forma orquestrada com que elas precarizam seus produtos, ao mesmo tempo em que inflacionam os preços, deixa o cliente sem saída.

A completa submissão dos tupiniquins cria o ambiente perfeito para o Lançamento de modelos como o novo Cronos, da Fiat, sedã que chega com preços a partir de R$ 60 mil, menor espaço interno, motorização mais fraca e acabamento mais pobre em relação ao extinto Linea.

Do antecessor que foi descontinuado, no ano passado, a novidade herda seus poucos atributos.

A plataforma do Cronos, por exemplo, é a mesma do Linea. Uma base que remonta ao ano de 2005 e que passa a ostentar uma nova denominação, MP1, apenas para tapear o cliente, escondendo o fato inegável de que o lançamento já nasce defasado – nunca é demais lembrar que, no Punto, esta plataforma trazia elementos da primeira geração do Palio, de 1996.

O Cronos só será apresentado, oficialmente, no dia 21, mas não há segredos em relação ao sedã, que partirá de cerca de R$ 60 mil, na versão Drive, equipada com motor 1.3 litro de 109 cv e câmbio manual de cinco marchas – o sistema Dualogic, que foi rebatizado de GSR-Comfort, na base da tapeação, eleva seu preço para cerca de R$ 64 mil.

Já o modelo Precision, equipado com o propulsor 1.8 litro 16V de 139 cv, não sairá por menos de R$ 66 mil.

Portanto, R$ 10 mil mais caro que o antigo Linea nesta mesma configuração. Aqui, a diferença em relação ao seu antecessor é que a opção do sistema Dualogic dá lugar a uma transmissão automática convencional de seis velocidades, que joga seu preço para a faixa dos R$ 72 mil.

Em uma segunda fase, o Cronos terá uma versão popular, mas a Fiat vai segurá-la para, daqui a uns meses, fazer de conta que foi o mercado que pediu uma motorização 1.0 litro.

Daí, ela, de forma redentora, insere o modelo na gama, só que reajustando os preços que o leitor acaba de ver – um script manjado, reencenado por décadas, mas que ainda cola diante da inépcia do consumidor brasileiro.

O Cronos chega às lojas com menos espaço interno que o Linea, além de motorização mais fraca na versão de entrada. Ao contrário do seu antecessor, o novo sedã mantém a mesma distância entre eixos do hatchback que lhe dá origem, o Argo, 2,52 metros.

São 8 cm a menos, em relação ao Linea, o que deve ser entendido como um interior mais apertado até que o do Grand Siena – seu porta-malas, de 525 litros, também é nivelado com o do Grand Siena. Já em relação ao trem de força, a oferta de torque do propulsor 1.3 litro é 25% menor que a do antigo EtorQ, com uma vantagem em economia que não chega a 22%. Falando de potência, são 13 cv a menos.

Comparando os dados de fábrica sobre desempenho, o Linea acelerava de 0 a 100 km/h em 9,9 s, contra mais de 11 s da versão mais acessível do Cronos.

Acabamento e novidades

O acabamento é outro ponto em que o lançamento anda para trás, comparado ao sedã descontinuado. Apesar de a montagem dos painéis internos apresentar as mesmas características, o Cronos usa materiais mais pobres que os do Linea, novamente se nivelando ao Grand Siena.

Outro ponto em que a economia pode ser notada é nos pneus, que tinham medida 205/50 aro 17, no Linea, contra 175/65 aro 14, no Cronos. Há ainda uma questão importante e que os olhos não veem: o sedã aposentado pesava 100 quilos a mais que o novo.

O leitor mais crédulo pode achar que este ‘’emagrecimento’’ se deve ao uso de aços mais leves e resistentes, mas acreditar nisso é o mesmo que crer no Papai Noel. Na verdade, essa diferença significa que a Fiat poupou em tudo, principalmente nos lugares que não são alcançados pela visão até dos consumidores mais críticos.

É claro que o Cronos também traz novidades, como o controle eletrônico de estabilidade (ESP) e o auxílio de arranque em aclives (Hill Holder), que nunca foram implementados no Linea brasileiro, mas que só estão disponíveis a partir da opção com câmbio automatizado. O sistema multimídia U-Connect também traz mais recursos que o usado anteriormente.

No entanto, isso não deve ser entendido como um salto tecnológico, mas uma condição sine qua non para o Cronos ter o mínimo de competitividade diante da concorrência. E, cá entre nós, quem tem um smartphone mais avançado, como o Galaxy S8 ou o iPhone 8, vai notar de cara que carrega, no bolso ou na bolsa, um produto muito mais qualificado do que o trambolhão embarcado no console frontal do novo sedã.

Vale lembrar que, quando começaram os rumores de que a Fiat produziria uma nova família de médios-compactos no Brasil, a expectativa era para a nacionalização dos novos Tipo hatchback e sedã europeus. Mas tanto o Argo quanto o Cronos passam longe disso.

Ao contrário do que ocorria com Punto e Linea, que estavam em sinergia com o Velho Continente, a marca volta a adotar uma solução caseira para o mercado brasileiro, desenvolvendo produtos específicos para os países latino-americanos e africanos, na medida do nosso subdesenvolvimento e da nossa sujeição às multinacionais. Basta compará-los.

O Tipo deles é 20 cm maior, tem mais espaço interno (com entre eixos 12 cm superior), motores mais modernos e econômicos, além de maior oferta de conteúdo e materiais mais qualificados. Em Portugal, o sedã parte de 16.350 euros (o equivalente a R$ 65.445 ou 28 salários mínimos de lá), com motorização de 95 cv.

Já por aqui, o Cronos não sairá por menos de R$ 60 mil ou o equivalente a 64 salários mínimos brasileiros. Ou seja, o tupiniquim irá pagar 2,3 vezes mais por um produto inferior em tudo, quando comparado ao “primo” europeu.

Mas o pior acontece quando o infeliz tem que financiar o zero-quilômetro: se der metade do valor de entrada e dividir o restante em 36 prestações, vai acabar pagando mais de R$ 75 mil por um modelo que, ao final deste período, estará valendo menos de R$ 48 mil.

Ou seja, é difícil imaginar um negócio pior que a compra do Cronos. Mas a imprensa “especializada” vai lhe convencer a comprar um. Nessa hora, não se deixe enganar.

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