Foram 54 anos de espera, até a Ford brasileira iniciar a importação oficial do Mustang. Um dos mais icônicos “pony cars”, que são os esportivos norte-americanos, o cupê chegou ao país, no mês passado, em uma única versão, GT Premium, equipada com motor V8 de 466 cv de potência. Seu preço sugerido de R$ 300 mil – na verdade, R$ 299.900 – é “nivelado” ao do arquirrival Camaro, da Chevrolet, que já roda por aqui há quase cinco anos.

A sempre subserviente imprensa automotiva não economizou confete para a sexta geração do modelo: “mito”, diz o texto da revista “Quatro Rodas”; “cinquentão em sua melhor forma”, reforça o da “Auto Esporte”; “lançamento histórico”, celebrou a “Motor Show”, e “motivo de comemoração”, festejou a “Car And Driver”. Os blogs e jornalecos foram além, tratando o Mustang como uma verdadeira divindade – até a campanha publicitária da Ford mereceu destaque, por parte dos pelegos.

Bom, talvez a expectativa de mais de cinco décadas tenha influenciado esta abordagem, potencializando os adjetivos. Mas, no afã da adulação, as reportagens deixam de lado fatos importantíssimos a respeito do Mustang, que o consumidor brasileiro precisa saber, até mesmo para embasar sua decisão de compra. O primeiro deles é que as vendas do Mustang andam em baixa, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

Ou seja, o esportivo pelo qual os brasileiros pagarão sete vezes mais caro do que os norte-americanos, viu suas vendas globais caírem 17,5%, só no ano passado – nos últimos dez anos, suas vendas, nos EUA, encolheram 50%.

O segundo fato é que o Mustang vendido no Brasil é o mais caro de todo o mundo. Em nenhum outro lugar do planeta, o consumidor é tão obtuso a ponto de pagar o mesmo valor de um imóvel de classe média por encalhe do mercado norte-americano.

Em Portugal, por exemplo, ele custa 5,5 vezes menos do que aqui e até mesmo na África, que é a referência negativa em termos de mercado, seu preço chega a ser 45% menor. Já o terceiro fato remete à plataforma usada pelo esportivo. Denominada S550, ela é, na verdade, uma variante das bases CD4, a mesma do sedã Fusion, e DC2, usada pelo próprio Mustang, desde 2004 – aqui, a grande evolução é a adoção da suspensão traseira independente, em substituição ao eixo rígido.

Segurança não é isso tudo

O quarto fato é que este também passa longe de ser o Mustang mais potente já produzido. A versão Shelby GT500, da quinta geração, entregava mais de 660 cv e, no ano que vem, ela retorna ao portfólio como modelo 2020, com cerca de 700 cv. O quinto fato diz respeito à segurança: o esportivo não é tudo isso, já que, em 2017, ficou perto da reprovação, conquistando apenas duas estrelas – em cinco – nos testes de colisão do Euro NCAP.

A Ford agiu rápido e preparou o modelo para uma segunda bateria de testes, em que sua nota subiu para três estrelas. Mas isto foi conseguido com a introdução de sistemas eletrônico de assistência, sem alterações estruturais – ou seja, no que tange à proteção aos ocupantes, seus resultados são bem inferiores aos do Focus.

Também vale lembrar – este é o sexto fato – que, apesar da fama de superesportivo e de ter conquistados títulos de categorias menores do automobilismo norte-americano, como o da extinta Gran-Am, o Mustang jamais foi campeão de nenhuma classe GT (GTO, GT2, GT3, GTLM ou GTD) dos campeonatos da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

Mas o principal fato – o sétimo – a respeito do modelo tem a ver com sua imagem. No Brasil, o Mustang causa fascínio nos tupiniquins, mas na Europa e Estados Unidos, que são os mercados mais competitivos do mundo, onde residem os consumidores mais qualificados e exigentes, o esportivo passa longe de ser um símbolo de ascensão social. Pelo contrário, lá ele é um modelo de segunda divisão – o jornalista William Waack usaria uma expressão politicamente incorreta para classificá-lo, mas se o fizesse não estaria, de todo, faltando com a verdade.

Em seu país de origem, seu público-alvo são coroas de classe média. O APEAL Study, da J. D. Power, revela que 80% de seus compradores são homens com mais de 50 anos de idade e renda anual de US$ 100 mil – o equivalente uma renda mensal de R$ 8.500, no Brasil.

Como se sabe, o provincianismo é uma verdadeira escravidão, por aqui. E cegado por campanhas publicitárias marotíssimas e pelo servilismo que atinge desde a grande mídia até os blogs, que trocam elogios por esmola das montadoras, o comprador mais crédulo paga o preço que for, levado a crer que, a bordo de restolho do Primeiro Mundo, terá prestígio, fará inveja na vizinhança – coitado.

Ao desembolsar R$ 300 mil por um Mustang, vai, na verdade, é fazer papel de bobo.

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