A síndrome da resignação é uma doença de caráter enigmático que faz com que as Crianças Refugiadas afetadas se fechem ao mundo a sua volta. Mesmo aparentando boa saúde, com pele e cabelos saudáveis, pressão sanguínea e reflexos dentro da normalidade, a pessoa não se mexe, fica em estado vegetativo em uma cama.

É como se partes do cérebro fossem desligadas. Com isso, param de se alimentar, falar, andar e abrir os olhos. Tal doença só ocorre na Suécia e somente atinge crianças refugiadas, cuja família se encontra em processo de residência ou asilo.

De acordo com a assistente social que administra o abrigo Solsidan para crianças em situação de risco, Annita Carlshamare, o triste motivo que desencadeia essa moléstia é o fato da pessoa ter sofrido uma traumática experiência ao vivenciar não somente a dificuldade de seus pais em fugir de seu país de origem como também vê-los sendo espancados, torturados, sequestrados por perseguidores radicais.

Quando a criança refugiada percebe que os pais não são capazes de tomar conta dela, como uma forma de mecanismo de defesa, perde a vontade de viver [VIDEO], pois sabe que é totalmente dependente dos familiares e sem eles, não tem com quem contar.

Por que essa doença ocorre somente na Suécia?

O que os médicos afirmam é que geralmente a síndrome da resignação afeta as crianças refugiadas de territórios mais vulneráveis, como as pertencentes a antiga União Soviética ou ciganas. Poucas crianças afetadas são de origem asiática ou estão desacompanhadas e não há nenhum registro de criança africana com o problema em questão.

Vale lembrar que mais de 15% da população sueca é composta por imigrantes, de acordo com o senso de 2010. Entre os anos 2003 e 2005, mais de 400 casos da chamada crianças apáticas foram registrados.

Sobre a imigração, o governo sueco permitia a permanência de famílias imigrantes com um filho debilitado. Com isso houve relatos de fraude, como pais drogando os filhos para parecerem doentes e garantir o direito à residência, mas nada foi de fato comprovado.

O curioso é que os pacientes com a síndrome vivem na Suécia há anos, já adaptados a cultura local, inclusive falando o idioma. É uma reação ao trauma adormecido que pode ser desencadeada a qualquer momento. Entre 2015 e 2016, foram apontados 169 casos.

O primeiro caso do problema foi registrado no norte da Suécia, em 1998. Assim que a notícia se espalhou, outros casos foram registrados na mesma área, o que faz pensar que a doença pode ser contagiosa. No entanto, o pediatra Karl Sallin, ressalta que o distúrbio não é contagioso, mas se tais comportamentos persistirem em um determinado local e afetar o inconsciente coletivo, certamente haverá mais casos.

Existe cura?

Ainda não há muitas pesquisas relacionadas ao tema. Por isso, a dificuldade em preencher as lacunas.

A boa notícia é que as crianças refugiadas afetadas podem se recuperar.

Para o tratamento, a primeira medida tomada pelo abrigo Solsidan é afastar a criança dos pais. Assim, ela estabelecerá vínculos com a equipe médica e os voluntários. O método consiste em tentar fazer com que os sentidos da pessoa sejam aguçados e façam com que ela tenha esperanças em viver novamente.

Sendo assim, os médicos e voluntários brincam, dançam, conversam, desenham, colocam refrigerante na boca dos pacientes para que sintam o sabor doce. Quanto aos enfermos que precisam se alimentar por via de sonda, a equipe médica os coloca na cozinha, para sentirem o cheiro de comida.

Até que consigam brincar, andar sozinhas, os voluntários estão o tempo todo fazendo tudo com as crianças refugiadas, ensinando-lhes que é possível serem independentes. Durante todo o processo os pais são informados sobre os avanços dos filhos e, assim que conseguem falar, são liberados para conversarem com os pais por telefone. Dessa forma, o vínculo familiar é estabelecido novamente, com a ressalva de não falarem sobre o processo imigratório.

Por fim, toda a expectativa de viver é estimulada nos pacientes, toda forma de fazer com que sintam-se seguros e protegidos novamente é incentivada. Será que são somente as crianças refugiadas que precisam de estímulos para viverem uma vida menos amarga? Será que nós também não somos seres apáticos que vivem à base de livros de autoajuda, sessões de terapia e caixas e mais caixas de antidepressivos?