Nessa quarta-feira (29), foram ouvidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) os depoentes Salvador Claro Neto, doutor em química pela USP (Universidade de São Paulo) e Roberto Jun Arai, gerente do Núcleo de Pesquisa do ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo).

O primeiro questionamento feito ao químico Salvador Claro Neto foi se ele acompanhou e auditou toda a produção da Fosfoetanolamina até a entrega no órgão. Ele informou que apenas participou da síntese do medicamento na PDT Pharma. Após a saída apenas do pó do laboratório para que fosse encapsulado na Furp (Fundação para o Remédio Popular), ele já não havia mais como controlar o que foi feito.

Em relação à dosagem que deveria ser administrada nos pacientes, Salvador afirma que nos testes clínicos que foram feitos em 1995 no Hospital Amaral Carvalho (os dados clínicos desapareceram), foram preconizadas três cápsulas por dia (manhã, tarde e noite) e não três cápsulas no mesmo momento uma vez por dia como foi administrado no Icesp (2016).

O presidente da CPI, deputado Roberto Massafera (PSDB), ressalta que o controle da qualidade deveria ser feito no produto final, já encapsulado, e não apenas na sua fase de sintetização (pó), pois passavam por muitas outras etapas antes de chegar até os pacientes que participaram dos testes. Salvador também afirma que em nenhum momento foi acionado para atestar a qualidade das cápsulas entregues pela Furp no Icesp, o que também poderia ter sofrido algum tipo de alteração, seja pelo transporte ou propositalmente.

Já Roberto Jun Arai, gerente do Núcleo de Pesquisas do Icesp, afirmou a comissão que não sabe o motivo de terem sido selecionados apenas 78 pacientes em fase terminal do câncer ao invés dos 210 pacientes divididos em 10 grupos.

Ao ser indagado sobre o motivo de não ter sido feito o teste de farmacocinética (consiste em saber todo o caminho percorrido por determinada substância, desde sua ingestão, absorção, até ser expelida pelo organismo), primordial em todos os estudos clínicos em humanos, Roberto afirma que foi alertado pela auditora que dar início aos testes sem isto seria algo surreal e poderia colocar vidas em risco, pois não conseguiriam definir a dosagem correta para cada tipo de tumor.

Ele afirmou que abriu licitação para que fosse feito por algum laboratório especializado e, para surpresa dele, nenhum se candidatou. Roberto afirma que então procurou um laboratório no exterior para efetivação deste. A farmacocinética da fosfoetanolamina sintética [VIDEO] nunca foi feita.

Vale lembrar que no caso de nenhum laboratório se candidatar a fazer o teste de farmacocinética da substância através de licitação, o estado poderia se baseando na lei, contratar o laboratório que julgasse mais capacitado para tal procedimento.

Foi questionado também a Roberto se no Icesp existem outras pesquisas em andamento e se todas elas possuem o teste de farmacocinética. O gerente respondeu que sim e, após orientação de seu advogado, afirmou que não participou desta parte. Ele disse que, por ser um medicamento desconhecido, talvez tenha sido este o motivo da contratação de uma empresa do exterior.

Lembrando que toda substância em teste é uma substância desconhecida e, por isso, requer todos os cuidados necessários e previstos pelo Conep (Conselho Nacional de Ética e Pesquisa).

Ao ser questionado sobre o motivo de ser aberto licitação para o teste de farmacocinética seis meses após o início dos testes em humanos, o gerente do Núcleo de Pesquisa também não soube explicar e afirmou que esta responsabilidade era do atual secretário de Saúde do estado de São Paulo, David Uip.

Pacientes já em estado terminal da doença foram submetidos ao teste da fosfoetanolamina sintética [VIDEO], mesmo não se sabendo a dosagem correta e nem o caminho percorrido pela substância no corpo humano.

Vale ressaltar que os pacientes foram submetidos a três cápsulas de fosfoetanolamina sintética de uma única vez e uma vez por dia durante todo o período. De acordo com mestre em imunologia e biomédico Durvanei Maria, seria impossível um paciente já em fase terminal da doença conseguir absorver 1.500 mg de qualquer substância de uma única vez.

Também foi questionado ao gerente de pesquisas o motivo de terem sido eleitos apenas 78 dos 210 pacientes previstos em protocolo e o mesmo afirmou não saber informar.