Quem leu ''Admirável Mundo Novo'', de Aldous Huxley, talvez se lembre do modo como os bebês eram gerados neste romance distópico futurista; dentro de úteros artificiais, como numa perfeita linha de produção, cada bebê se desenvolvia de forma calculada.

Como apenas uma pequena parte da população podia ser 100% inteligente de saudável, como forma de garantir o equilíbrio social, pequenas doses de álcool eram adicionadas ao líquido amniótico da maioria.

Na obra de ficção, o álcool era responsável causar pequenos ''defeitos'', que iam desde falhas no desenvolvimento cerebral até problemas congênitos. O personagem principal, Bernard, estava selecionado para ser um dos pouquíssimos seres humanos com 100% de potencial, mas suas feições continham sinais de algum tipo de erro na linha de produção.

Dizia-se que, provavelmente, uma gota de álcool não planejada havia caído no ''útero'' em que Bernard fora gerado, modificando sutilmente seus traços.

Parece afinal que, de certa forma, o escritor britânico Aldous Huxley estava certo a respeito do álcool, pelo menos em partes. Uma pesquisa publicada pelo AMA Pediatrics aponta que o consumo de álcool durante a gestação [VIDEO], ainda que em pequenas doses, é capaz de modificar as feições do bebê. Tais modificações ocorrem principalmente no nariz, olhos e lábios superiores do feto.

Não é novidade para ninguém, desde 1973, que fetos que são expostos a grandes quantidades de álcool durante a gestação possuem maior possibilidade de desenvolver má formação física e mental; estes são chamados pelos médicos de ''desordens do espectro alcoólico fetal''.

Até 9% das gestantes de países como a África do Sul, por exemplo, consomem álcool suficiente para gerar desordens para seus bebês.

Agora sabe-se que os efeitos do álcool na formação dos fetos são graduais; um gole de álcool pode gerar pequenas modificações no rosto do bebê. Para comprovar este dado, uma equipe de pesquisadores, comandados pela pediatra australiana Jane Halliday, realizou um acompanhamento com 1570 gestantes, das quais 27% tomaram pequenas doses de álcool no decorrer dos nove meses de gestação.

Quando os bebês tinham cerca de um ano de idade, a equipe fotografou 415 deles em diversos ângulos e criou modelos tridimensionais de seus rostos em computador, a partir das fotografias.

O resultado aponta que as mães que consumiram pequenas quantidades de álcool geraram bebês com sutis modificações em suas feições, tais como um nariz mais empinado ou lábios mais finos. Estas modificações, em geral, não podem ser percebidas a olho nu e só foram percebidas pelo algoritmo de análise dos dados.

Vale ressaltar que, nestes casos, não houve prejuízo no desenvolvimento mental ou físico de nenhum dos bebês analisados.

A pesquisa mostra que não há um ''limite seguro'' para o consumo de álcool, uma vez que certos fetos são imunes a intoxicação pela bebida, enquanto em outros, os efeitos são expressivos; o mecanismo pelo qual a bebida alcoólica pode afetar um feto em desenvolvimento ainda não é plenamente conhecido pelos pesquisadores.

Jane Halliday, no entanto, pedem que as mães que consumiram pequenas doses de álcool no início de suas gestações, em sua maioria sem sequer suspeitar que estavam grávidas, que não entrem em pânico. A pediatra explica que, pelo menos até este estágio de sua pesquisa, não foi encontrado nenhum problema digno de preocupação.