Depois de ser internada com ferimentos profundos, uma mulher descobriu porque ‘’ouvia’’ vozes divinas. Sarah aparentemente tinha um "dom" que sugeriu a ela se auto mutilar. Sua religiosidade ia e vinha por vários momentos em sua vida, mas até momento isto não a tinha prejudicado.

Porém, dessa vez, foi diferente, a voz que ela ouviu a mandou se automutilar, o que causou espanto e a curiosidade da ala psiquiátrica do hospital. Ao se aprofundarem nos exames, perceberam que os problemas da paciente poderiam não ser espirituais ou psicológicos, mas de saúde. Um tumor poderia ser o responsável pela espiritualidade de Sarah.

O caso de Sarah com sua religiosidade

O caso que surgiu no fim de 2015 foi estudado pelo psiquiatra Sebastian Walther e publicado na revista científica Frontiers of Psychiatry (Fronteiras da Psiquiatria), contando a história de Sarah (nome alterado para preservar a paciente).

A mulher tinha 48 anos e foi internada por apresentar ferimentos graves e profundos no peito causados por ela mesma. Segundo Sarah, as vozes divinas a mandaram fazer e ela se sentia abençoada por ter este dom.

Walter decidiu estudar o caso para saber o que havia com a paciente. Primeiro suspeitou de esquizofrenia, mas descartou a hipótese, pois ela não apresentava problemas sociais ou casos de depressão.

Ao fazerem outros exames, diagnosticaram um tumor no cérebro de Sarah, este era responsável pela perca de alguns neurônios na região afetada. A mulher ouvia vozes em períodos que levavam semanas ou poucos meses. Sarah tinha mostrado indícios de fundamentalismo religioso desde os 13 anos de idade, ela ficava mais espiritualista, procurando se aproximar de grupos religiosos. Quando as vozes passavam, ela se afastava da religião.

Nesses períodos em que Sarah ouvia as vozes responsáveis por suas espiritualidade, Walter concluiu sua pesquisa, afirmando que a religiosidade de Sarah estava ligada ao tumor que tem no cérebro, pois a doença afetava a parte do cérebro que é responsável pela distinção dos sons internos e externos [VIDEO] percebidos.

O tumor

O tumor, no entanto, é benigno e cresce lentamente. Acredita-se que ele está no cérebro de Sarah desde sua adolescência, quando começou a ter alucinações auditivas. O tumor [VIDEO] é estável, mas não pode ser retirado por cirurgia ou radioterapia, pois poderia afetar outras áreas do cérebro.

Estima-se que entre 5% a 19% da população não consegue distinguir completamente os sons externos dos internos, podendo confundir seus pensamentos com vozes externas (alucinações auditivas). A neurocientista Kristiina Kompus, da Universidade de Bergen, na Noruega, explica como funcionam as alucinações auditivas.

O tálamo é a parte do cérebro responsável por filtrar o que se ouve e identifica o que são sons externos ou pensamentos.

Quando o tálamo não funciona corretamente ou está muito fino (o que acontece com os esquizofrênicos), o filtro não funciona e as vozes que podem ser do subconsciente parecem muito reais e externas.

Tudo o que se vê e ouve entra no tálamo, que faz uma retransmissão para o córtex. Se esta transmissão vem com defeito, a percepção do que é real e imaginário fica prejudicada.

Porém, a pesquisadora Kristiina explica que ouvir vozes não significa ser um problema, se elas não estiverem ligadas a um problema mental. Sarah hoje vive bem e sabe que, quando as vozes voltam, pode tomar seus medicamentos e ter uma vida normal.