Em 2016, quando houve um aumento significativo de casos de microcefalia em crianças recém-nascidas, relacionados ao Zika Vírus, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou emergência sanitária. Agora, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) fizeram uma grande descoberta, as células que o vírus Zika costuma atacar em fetos são as mesmas células presentes em alguns tumores como o meduloblastoma e o tumor tiratóide rabdóide atípico (AT/RT).

Os primeiros testes da eficácia do vírus em tratamento de câncer cerebral mais comuns em crianças, feitos no Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-tronco, aconteceram com os comundongos transgênicos sem sistema imunológico selecionados, que receberam células humanas com estágio avançado de câncer.

Os pesquisadores verificaram que pequenas quantidades do vírus injetadas nesses animais reduziram a massa do tumor significativamente.

Em um acompanhamento de quase três meses, eles verificaram que de 29 camundongos, 20 tiveram uma certa regressão do tumor, 9 tiveram a massa do tumor totalmente eliminada, além de alguns desses em que o tratamento foi eficaz contra metástases (casos em que o tumor se espalha pelo organismo) - ou impediu a evolução de tumores secundários ou os eliminou.

Oswaldo Keith Okamoto, um dos principais autores da pesquisa, explicou que o Zika ataca as células-tronco neurais do feto, causando a microcefalia. Foi a partir daí que os pesquisadores decidiram analisar se o vírus também atacaria as células tronco de tumores do sistema nervoso, então, concluíram que o vírus é mais atraído por essas células, do que pelas células-tronco neurais.

Okamoto afirma, ainda, que de acordo com os resultados, vários outros tipos de cânceres do sistema nervoso podem ser tratados com o Zika, mas que precisam analisar antes quais respondem a esse efeito. Outra importante descoberta da pesquisa é que depois que o vírus ataca as células neuroprogenitoras, ele “repousa” e perde seu poder destruidor de antes.

Os cientistas pretendem começar os testes humanos em breve. A pesquisadora Mayara Zatz revela que primeiramente serão feitos em um grupo de duas ou três pessoas e que será usado o vírus selvagem, como o usado nas cobaias. Apesar dos efeitos promissores, ela aponta que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

O estudo foi publicado na última quinta-feira (26) na prestigiada revista “Cancer Research”, publicação científica da American Association for Cancer Research.