Nascido no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1908, Angenor de Oliveira, popularmente conhecido com Cartola, se interessou pela Música ainda criança. Seu pai não queria que ele "perdesse tempo" com o samba e não o deixava mexer no violão, mas o garoto prestava atenção nas notas que o pai tocava, pegava o violão escondido e repetia o que aprendera de ouvido.

Em 1919, mudou-se para o morro da Mangueira devido às dificuldades financeiras enfrentadas pela família e ali começa sua vida boêmia, acompanhado pelo amigo Carlos Cachaça. Aos 15 anos, perde sua mãe e logo abandona os estudos, tendo apenas o ensino primário. Quando estava com 17 anos, seu pai Sebastião foi embora, restando a ele trabalhar para sobreviver.

Foi no ofício de servente de obra que ganhou o apelido que seria conhecido no Brasil inteiro, já que protegia a cabeça com um chapéu-coco para não deixar cair cimento no cabelo.

O samba pede passagem

Em abril de 1928, com Carlos Cachaça e Zé Espinguela, ajudou a fundar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Estação Primeira foi o nome escolhido por Cartola porque a partir da Estação Central do Brasil, era a primeira estação de trem que havia samba, que até então não tinha reconhecimento cultural. As cores verde e rosa foram uma escolha do músico em homenagem a um rancho que havia nas Laranjeiras.

Em 1930, foi procurado por Clóvis Miguelão, que queria comprar um samba para Mário Reis gravar. O músico vendeu a canção "Que infeliz sorte" por 300 mil réis com a condição de que a autoria seria mantida, o que foi feito.

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Quem acabou gravando a canção foi Francisco Alves, que gravou outros sucessos do sambista. Retoma a parceria com Noel Rosa e compõe letras como "Tenho um novo amor", "Não faz, Amor" e "Qual o mal que eu te fiz?". Com Francisco Alves, Cartola viu seu primeiro samba fazer sucesso comercial: a canção "Divina Dama" foi gravada em 1933 e artistas como Carmem Miranda passaram a lançar sua músicas. Admirado por Heitor Villa Lobos, foi convidado para gravar junto com Donga, Pixinguinha e João da Baiana para o maestro Leopold Stokowsky, mundialmente famoso por percorrer a América Latina recolhendo músicas nativas.

Dona Zica, a grande sorte do mestre

Trabalhando como vigia e lavador de carros na zona sul e sem o prestígio que conquistara na Mangueira, Cartola conhece Eusébia Silva do Nascimento, a Dona Zica, que se apaixona por ele e o leva de volta para a Mangueira. Um dia, trabalhando em Ipanema, foi reconhecido pelo jornalista Sérgio Porto. Tal encontro foi crucial para a retomada da carreira do sambista, que já era dado como morto.

Cartola deu entrevistas, cantou em rádios e restaurantes e teve os sambas "Grande Deus", "Festa da Penha" e "Vale do São Francisco" gravados por outros artistas, chegando a atuar no filme "Canga Zumba", dirigido por Cacá Diegues.

Com a ajuda de Zica, excelente cozinheira, no início da década de 60 abriu o Zicartola, um bar frequentado por intelectuais e artistas como Nara Leão, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Pixinguinha, entre outros. Em 1964, legaliza sua união com Zica, mas pouco depois o Zicartola é fechado e os dois são despejados do local, que servia também como moradia. Nessa época compõe a clássica "O mundo é um moinho", que foi gravada por artistas como Beth Carvalho e Cazuza. Na década de 70, já esquecido pela mídia e sem ter nenhum disco gravado, foi procurado pelo produtor musical Pelão, que produziu seu primeiro disco. Depois deste, compôs seu maior sucesso, "As rosas não falam" e não parou mais de gravar. No fim dos anos 70, retornou para a Mangueira e durante um projeto com Pixinguinha, descobriu que está com uma doença grave. Muda-se para Jacarepaguá e aos 70 anos, já debilitado pela doença, comemora seu aniversário na quadra da Mangueira e compra seu primeiro carro. Em 30 de novembro de 1980, o sambista perde a batalha contra o câncer, mas deixa para sempre sua marca na história da música popular brasileira.