Imagine que você resolve se hospedar em um hotel na beira da estrada. A noite, no friozinho, você decide ficar deitado em sua cama comendo um lanche e vendo TV. Imagine agora coisa pior: uma noite íntima com seu namorado e que depois dos momentos mais quentes você resolve tomar banho e ter uma conversa ocasional com a porta aberta.

Agora, tente mensurar a gravidade de algo ainda pior: uma traição depois do trabalho. Você dá uma passadinha no hotel, entrega-se a seu amante e sem desconfiar alguém te segue até a porta de sua casa.

Mas quem? Quem te segue? O dono do hotel. E ele, curioso, completamente escondido, observa sua chegada em casa, o abraço que você dá em seus filhos e o beijo longo no seu marido, que há pouco foi traído. Pois é, é disso que fala o mais recente e bombástico livro do jornalista americano Gay Talese.

Em “Voyeur” os princípios éticos entram em xeque: quais os limites de um furo de reportagem e da curiosidade humana? O americano Gay Talese passou dos limites ao acompanhar por mais de 20 anos a vida de Gerald Foos, um fanático pela vida alheia?

Você faria companhia a um curioso que construiu um verdadeiro “laboratório de observação” no teto de um hotel e que usava os respiradores do ar condicionado para invadir a privacidade de todos os seus hóspedes?

Embora Talese tenha colocado em risco toda sua trajetória como escritor e grande expoente do jornalismo literário, seu livro é um clássico que tem que ser apreciado por todos. Sem querer, as 270 páginas nos aguçam e alfinetam nossos princípios. Todo mundo é um pouco “Voyeur”?. Quem nunca teve curiosidade de conhecer a podridão que há naqueles que se fazem de santos?

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Se te convidassem a observar as diferenças entre discurso e prática, o que você faria? Diria não ou faria questão de dissecar a complexidade humana? E se o pesquisado fosse você?

Não é recente o gosto de Talese pela polêmica e principalmente por ascender a chama das discussões sobre ética. Desde “A Mulher do Próximo”, que fala da indústria pornográfica americana e a liberdade sexual dos anos 80, onde surgiram as primeiras casas de swing, até o livro “Honra Teu Pai”, que fala da máfia italiana e que provou o profundo contato do escritor com os maiores criminosos do mundo.

“Voyeur” despe o leitor. É o tipo de livro que você lê em poucos dias. Principalmente quando a sua própria dignidade de leitor passivo é colocada em prova: estou colaborando para que mais jornalistas fiquem apáticos diante de casos de Polícia? E se nessas observações alguém morrer e ninguém puder socorrer para não ficar evidente a ausência de ética? Incentivo a impunidade quando leio? Deixo para você responder...

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