Há 20 anos, quando se anunciava o lançamento de um disco de Chico Buarque, criava-se uma expectativa aflitiva nos amantes da MPB. De universitários a ex-guerrilheiros, passando por bancários, donas de casa e a fina flor da sociedade pós-Ditadura Militar, todos, absolutamente todos, aguardavam cruciantemente para ouvir as novas composições do artista. Mas isso foi há algum tempo, quando tínhamos a música de Chico Buarque como uma unanimidade. Hoje, sabemos que não é mais e, para se certificar disto, basta conferir o número de visualizações do clipe oficial de “Tua Cantiga”, carro-chefe de “Caravanas”, que chega no final deste mês: em duas semanas, ele foi reproduzido mais de 700 mil vezes.

Óbvio que é um alcance respeitável, mas o vídeo de “Paradinha”, da reboladeira Anitta, vai bater em 130 milhões de visualizações (183 vezes mais) amanhã ou depois. E isso tem um enorme significado.

Há 20 anos, os olhos verdes de Chico tinham mais “sex appeal” que o bumbum da Gretchen, que é a legítima antecessora de Anitta e outras cantoras genéricas do mesmo estilo. Hoje, não há talento musical ou virtuosismo que faça frente ao suingue da morena. Vivemos, nestas últimas duas décadas, uma erotização sem precedentes e não adianta negar à Anitta seu lugar na música brasileira atual, na tentativa de salvar a MPB deste fenômeno. Paralelamente à “gluteolização”, Chico Buarque atingiu um grau de sofisticação, neste mesmo período, que só uma minoria de seus fãs consegue decodificar.

Suas harmonias evoluíram para uma complexidade jazzística, seus ritmos trocaram a batida da bossa nova e do partido alto por um valseado erudito e suas letras não têm mais o viés político, que marcou uma geração. O requinte de sua poesia, ao contrário das provocações do seu alter ego, Julinho da Adelaide, não encontra espaço nas rodas de violão. Para ser minimamente franco, a juventude de hoje desconhece ou, se conhece, sequer respeitar a militância desempenhada pelo compositor – isso ficou evidente no episódio em que ele foi insultado por dois filhinhos de papai, no final de 2015, na saída um restaurante carioca.

Chico Buarque virou um artista de nicho e parece que é exatamente isto que ele quer: distância da patuleia ignara. Some a isso os caprichos – afinal, todos os temos – do compositor, que é avesso a incluir grandes sucessos nos repertórios das poucas apresentações de suas turnês, e temos um descolamento completo do Chico de hoje daquele de ontem. É verdade que, mesmo com preços proibitivos, seus shows têm lotação esgotada, rapidamente, e filas que dão volta no quarteirão, mas é uma espécie de mística que atrai a maioria de seus espectadores.

Não existe mais aquele frisson, aquela ebulição que só a contracultura proporciona. Na sua última temporada, empresários, industriais e servidores de alta “patente” desfilavam pelos foyers, causando até certo constrangimento nos fãs que tiveram que quebrar o cofrinho para conseguir bancar o ingresso.

Paradoxo

E é aí que repousa o paradoxo “chicobuarquiano”: é para a elite musical que Chico compõe e é para uma elite intelectual para ele trova. Mas na plateia em que os mais caros perfumes se misturam, estão sentados almofadinhas e madames démodés. Gente que só se empolga quando fala da própria carreira, que só sorri quando ostenta aquilo pelo que paga valores altíssimos. Então, por mais qualificado que seja o programa, a coisa não decola – sei que a comparação pode soar ridícula, mas qualquer show do Marcelo Camelo, do Los Hermanos, tem mais intensidade, mais cor. Ao “se livrar” de “A Banda”, Chico Buarque também viu passar o viço que marcou sua discografia até “Francisco”, de 1987. De lá para cá, a coisa foi amornando...

É por isso que quando “Caravanas” chegar às lojas físicas e virtuais, a imprensa “especializada” – aqui, é bom frisar que 90% dos jornalistas que escrevem sobre música não sabem a diferença de um dó para um lá, de um si para um ré – vai cobri-lo de elogios, mais para passar uma imagem de erudição do que pela distinção que o lançamento terá, na obra de Chico Buarque. Sejamos francos: a faixa “Tua Cantiga”, escolhida pela gravadora para abrir caminho para o lançamento, não é nada mais do que um desfile de acordes difíceis, emoldurado para um arranjo rebuscado e pontuado pela letra romântica.

Aquela promessa de amor eterno que, noutros tempos, fez uma geração de moçoilas suspirar ao ouvir, pela voz de um homem, o turbilhão de pensamentos que rodavam dentro de suas próprias cabeças, hoje deu lugar ao “papai te ama”. A glorificação midiática pode – e deve – potencializar as vendas de “Caravanas” e convencê-lo – você mesmo! – a comprar sua cópia, mas, logo na primeira audição, você vai sentir uma decepção contida que, certamente, vai guarda para si – afinal, não convém a ninguém do seu nível intelectual profanar a “Virgem Maria da cultura nacional”.