Há exatos 75 anos, o Rio de Janeiro era palco da première de uma pequena obra-prima do universo das animações: Alô, Amigos, mescla de desenho animado e documentário live-action, realizado pela equipe dos Estúdios Disney [VIDEO]. A que devemos, nós brasileiros, tamanha honra, ao receber, cerca de um ano antes, a visita da turma de cartunistas mais famosos do planeta, encabeçada ainda pela presença ilustre do próprio Walt Disney e, em seguida, ao privilégio de realizar a estreia mundial de uma obra que entraria para a história desse significativo segmento da sétima arte?

Tudo deriva, na verdade, da chamada Política de Boa Vizinhança iniciada anos antes pela administração do presidente democrata dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, cujo propósito seria, em curtas palavras, dissolver a imagem negativa de imperialista e opressor que o país norte-americano sofria de seus colegas, os países latino-americanos.

Não cabe aqui, todavia, nenhuma crítica ou tentativa de desvelar implicações ou motivações ocultas a esse respeito. Vale observar, contudo, que Carmen Miranda, estrela de Hollywood na ocasião, chegou a ser considerada musa dessa iniciativa de teor evidentemente diplomático.

Embrenhado em dívidas, por conta da recente expansão de seus estúdios, trabalho em excesso, e percebendo o fechamento do mercado europeu a seus produtos, em razão da Segunda Guerra Mundial, Walt Disney não vislumbrou opção melhor e acatou a incumbência do Departamento de Estado dos EUA para liderar essa verdadeira missão “apaziguadora” (ao mesmo tempo em que se procurava atenuar as inclinações latentes em relação ao crescente perigo nazifascista que assolava a Europa), já que seus personagens eram ídolos também em toda a América Latina.

Com efeito, Disney reúne, em 1941, uma trupe de artistas da melhor estirpe, em diversas categorias, entre desenhistas, roteiristas, técnicos etc. rumo aos principais países da região: México, Chile, Argentina e Brasil. Ao longo de pouco mais de um ano, com trabalho impressionantemente minucioso, foram realizadas pesquisas e colhidos depoimentos, imagens e tantos outros dados que formaram a base para o enredo do filme Saludos, Amigos (Greetings, Friends), lançado, antes mesmo que nos Estados Unidos, como já mencionado, em 24 de agosto de 1942, no Rio de Janeiro.

Apesar de o camundongo Mickey Mouse não figurar entre os personagens que aparecem no filme de apenas 42 minutos, curto para os padrões do megalomaníaco Walt Disney, o protagonismo que coube aos ícones dos EUA, Pato Donald e Pateta, ainda que imiscuídos em cenas live-action, foi suficiente para garantir o sucesso da produção, tanto de crítica quanto de bilheteria, que, pelas mesmas motivações diplomáticas, foi dividida em quatro segmentos, cada um dos quais relacionado a um país.

Nasce o Zé Carioca

A propósito de protagonismo, principalmente para nós brasileiros, é preciso dizer que também nessa importante data de estreia, as plateias mundiais conheceram um personagem, especialmente idealizado sob medida pelo próprio Disney para simbolizar o Brasil, da mesma maneira que o Pato Donald personificava, por assim dizer, os Estados Unidos. Nascia ali José Carioca (ou Joe Carioca, para eles, e, mais tarde, apenas Zé Carioca, para nós). Eis, pois, exatamente o fato pelo qual o Brasil foi privilegiado. Nem Chile, Argentina ou México ganharam, pelas mãos e mentes criativas da Disney - talvez hoje, com a aquisição da Lucas Film e do controle da saga de maior sucesso de todos os tempos, Star Wars, o maior estúdio cinematográfico em atividade -, um representante da envergadura do Zé Carioca.

Esboçado como um papagaio verde e grande bico amarelo, cores predominantes da bandeira brasileira, Zé Carioca é retratado na história como um típico malandro carioca, fumante de charuto (sic), sambista versátil e, vejam só, apreciador de cachaça, com a qual acaba embriagando, como anfitrião, o Pato Donald, durante trajetória de apresentação da cidade do Rio de Janeiro ao ilustre visitante. Notemos a ingenuidade dos roteiristas da época, ao optarem por um caminho que seria provavelmente considerado hoje total e politicamente incorreto, haja vista ser o público de tal gênero de filme majoritariamente infanto-juvenil.

Outro ponto importante a destacar consiste na opção pela introdução do notável personagem no final da película, à guisa de quando preferimos deixar a gema preciosa para ser exibida somente no fim de tudo. Zé Carioca irrompe em nossas telonas ao som do melhor de que dispúnhamos em termos musicais na época: Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, e Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Esta última canção, apesar de ser composta originalmente em 1917, virou imediatamente um hit popular após a exibição de Alô, Amigos, cinco anos antes de a própria Carmen Miranda eternizá-la com sua performance em Copacabana (1947).

Pelo sim, pelo não, o aniversário dos 75 anos da primeira aparição do Zé Carioca deveria ser celebrado com mais exaltação, não acham? O personagem, cada vez menos presente nas HQs (gibis) publicadas pela Editora Abril desde a década de 1970, anda um tanto esquecido. Seria consequência das políticas fraudulentas dos sucessivos governos fluminenses?