No texto anterior, [VIDEO] expliquei uma pouco a respeito do "#Queer", termo evocado na polêmica exposição "QueerMuseu", cancelada prematuramente pelo Santander após protestos encabeçados pelo MBL na última semana. Não é a primeira vez que tentam impedir um evento que leva "queer" em seu nome de acontecer.

O "I Seminário Queer - Cultura e Subversões das Identidades", realizado em 2015 pelo Sesc de São Paulo em parceria com a revista Cult, que trouxe a filósofa Judith Butler, considerada precursora dos Estudos Queer, também foi alvo de protestos, embora de impacto menor por visar a um público restrito e principalmente acadêmico.

Desde seu surgimento, a Teoria Queer vem sendo bastante criticada e até mesmo atacada por grupos ativistas que priorizam a identidade como ferramenta de luta política. Isso acontece porque o "queer" está pautado na ideia de que identidades são fluidas e mutáveis, de forma que toda pessoa é formada por uma multiplicidade delas. Para o "queer", não existe uma identidade que seja atributo estável e que corresponda a uma essência do sujeito.

Assim, podemos dizer também que não existem uma sexualidade e um gênero fixos, imutáveis, constituidores de uma essência. Quando assumimos uma identidade de gênero e uma sexualidade o fazemos com o objetivo de sermos compreendidos socialmente, de nos encaixarmos numa ordem que nos torna sujeitos inteligíveis. Um exemplo? Um homem homossexual pode não necessariamente ter relações sexuais apenas com outros homens, mas se identifica como homossexual porque se vê melhor representado por esse grupo, por essa comunidade.

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Além de essa percepção desestabilizar as certezas que damos por evidentes, ela de certa forma é perigosa para aqueles movimentos que se construíram com base em identidades. Aquela noção de que a pessoa já nasce homossexual é questionada pelo "queer" - e a de que nasce heterossexual, também.

Por se tratar de uma gama de estudos ampla e, às vezes, de teorias que entram em conflito entre si, eu não conseguiria fazer um apanhado de tudo o que já foi desenvolvido sob o rótulo de Teoria Queer, mas o que importa saber é que a desconstrução, o questionamento, a problematização e a incerteza são a proposta do "queer", muito mais do que a construção de novas regras e o oferecimento de respostas simples e precisas para os problemas que levanta.

Por isso, a Teoria Queer possibilita o surgimento de novas identidades e sexualidades que não pretendem se encaixar dentro das lógicas dualistas do pensamento ocidental, como masculino/feminino e heterossexual/homossexual.

E isso incomoda até mesmo quem está dentro da comunidade #LGBT e que tem interesse em manter as normas do movimento alinhadas ao discurso hegemônico, a fim de obter mais facilmente a aceitação da sociedade: gays discretos que não demonstram afeto em público, nem apresentam comportamento afeminado; lésbicas femininas que não veem com bons olhos as mais masculinizadas; transexuais que não querem discutir sobre seu "passado trans", abandonando o ativismo assim que conseguem uma aparência inteiramente de acordo com os padrões do gênero com o qual se identificam.

Feministas que excluem mulheres transgêneras da luta das mulheres também vilanizam - e muito - o "queer", justamente por este oferecer embasamento teórico e estratégias de empoderamento para identidades transgêneras múltiplas, que não desejam se encaixar no binário homem/mulher.

É claro que, com todo seu potencial de desconstrução, o "queer" corre o risco de ser usado por algumas pessoas de maneira a apagar toda a visibilidade das diferenças, conquistadas a duras penas por grupos historicamente marginalizados e invisíveis. Isso pode abrir caminho para a manutenção de hegemonias - como a de homens gays que passam a falar por toda a comunidade LGBT, alegando que somos todos/as "queer".

Aqui, é preciso tomar cuidado e avaliar criticamente cada eventualidade: para a Teoria Queer, não se trata de tornar as identidades invisíveis, nem de pregar que deixem de existir. Antes, a defesa de uma única pessoa comportar várias identidades que podem transitar significa trazer à tona a importância das interseccionalidades sem fazer com que sujeitos se prendam às amarras de uma essência pouco produtiva. Isso nos permite formar coalizões [VIDEO] e abalar estruturas de dominação que requerem sujeitos fixos, estáveis e intransigentes para se manter em funcionamento.

No próximo texto, pretendo abordar um pouco dos problemas de se adotar o "queer" no Brasil sem se criticar os moldes americanos do termo - retomando a exposição "QueerMuseu" como exemplo - e as possibilidades de tradução cultural da Teoria Queer.