A filósofa estadunidense Judith Butler vem ao Brasil para o seminário "Os Fins da Democracia", realizado pela USP (Universidade de São Paulo) e que será sediado no Sesc Pompéia, na capital paulista, entre os dias 7 e 9 de novembro. Mundialmente reconhecida por suas contribuições para os estudos de gênero, Butler segue uma linha de pensamento chamada de pós-estruturalista e é considerada uma das precursoras dos estudos Queer. Mas o quê, afinal, a filósofa diz que causa tanto medo em conservadores e religiosos?

Sua obra mais conhecida foi traduzida no Brasil sob o título de Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade e originalmente lançada em 1989.

A última edição brasileira é de 2015, o que mostra a atualidade das propostas de Butler. Nela, a autora questiona a forma como o feminismo assume que exista um sujeito mulher que seja universal e aponta para como o gênero é uma construção produzida a partir da repetição de atos, discursos, códigos e outras práticas repetidas continuamente.

Resumindo grosseiramente o livro, um de seus postulados está em apontar que a maneira como enxergamos e damos sentido tanto ao sexo quanto ao gênero depende da linguagem e que, por isso, não existe uma forma de nos referirmos a uma natureza corporal que seja anterior a essa linguagem. Não se trata de uma concepção simples e, na verdade, até mesmo para o meio acadêmico a leitura das obras da autora é considerada complexa. Uma vez que adquirimos a linguagem de forma quase imperceptível, não nos damos conta de que toda nossa percepção do mundo é dependente do discurso.

E o discurso é uma criação do ser humano.

Embora a filósofa tenha recebido muitas críticas por colocar o aspecto material em segundo plano, a maneira como ela expõe que sexo, gênero e sexualidade só fazem sentido a partir da linguagem e que não são dados naturais - aqui, é preciso também destacar que até o que conhecemos da biologia e das demais ciências só ganha sentido a partir da linguagem -, abre caminho para que questionemos o que nos é imposto através, justamente, do discurso, como se fosse uma verdade incontestável.

Por meio do discurso e das verdades por ele criadas, fica instaurada uma lógica que associa sexo a gênero, a desejo e a sexualidade, de forma que só possa haver um caminho para cada indivíduo. Dessa forma, se você nasceu com uma configuração biológica de "fêmea" (sexo), você só poderá ser uma mulher (gênero) e sua única possibilidade será a de se sentir atraída por homens (desejo), identificando-se como heterossexual (sexualidade).

Essa lógica exclui sujeitos homossexuais, bissexuais e transgêneros, transformando suas respectivas vivências em marginais, as quais não são contempladas pela cultura hegemônica.

Foi seguindo essa linha que a exposição QueerMuseu, por exemplo, foi pensada. As obras ali apresentadas procuravam questionar essa ideia de que uma pessoa só pode ter uma configuração de identificação possível. Acontece que, popularmente, tanto o termo "queer" (que em inglês significa "estranho", "bizarro", e é usado de forma pejorativa para se referir a gays afeminados e a lésbicas masculinizadas) como as reflexões propostas por essa linha de estudos usam uma política de afronta, pois não desejam uma assimilação: quanto mais incômodo for causado, melhor.

O que acontece, então, é que, além da própria complexidade dos estudos queer no âmbito acadêmico, há uma dificuldade de se encontrar apelo entre pessoas tradicionalistas e conservadoras, porque explicar, didaticamente, o que vem a ser o queer significa, literalmente, matar o queer. A sociedade está condicionada por pensamentos ordenados, bem classificados, e o queer representa uma verdadeira ameaça a isso.

Não é à toa que até mesmo pensadores mais progressistas rejeitem essa movimentação que vem, desde a década de 1980, esforçando-se para desconstruir e desestruturar toda e qualquer norma.

No que diz respeito ao gênero, não há preocupação alguma em "transformar meninos em meninas e meninas em meninos [VIDEO]", ou em dizer que devem inventar um gênero para si. Existe apenas uma abertura para que todas as expressões sejam livres e que na sociedade possam conviver, respeitosamente, a menina que adora usar rosa e brincar de bonecas e a criança que foi designada como menina ao nascer, mas que não se vê como tal e apresenta uma necessidade de negar essa designação feminina, ou o garoto que gosta ao mesmo tempo de jogar futebol e de usar saias e pintar as unhas.

Além do mais, isso pode implicar admitir também que famílias não se guiam apenas pela lógica reprodutiva e que os lares podem ser formados a partir de configurações variadas.

Isso significa abraçar a pluralidade, em vez de reprimir tudo aquilo que é diferente e forçar os indivíduos, múltiplos, a se adequarem a um padrão desnecessário.