Sinta a Liga Crew é um grupo de hip hop paraibano que surgiu no ano passado, composto por Kalyne Lima, Preta Langy, Camila Rocha, Giordana Leite, Priscila Lima "Witch" e o DJ Guirraiz. No último domingo (13), foi lançado seu primeiro EP, contando com as faixas Campo Minado, que dá nome ao disco e segue com as músicas Minha Banca, De Passo em Passo, Correria e Sinta a Liga Crew. Todas as faixas estão disponíveis em plataforma digital.

Confira agora entrevista que o grupo nos concedeu!

Como surgiu o grupo? Falem um pouco de vocês.

O grupo surgiu em julho de 2016. Na ocasião, Karol Conka ia fazer um show na cidade e duas atrações locais foram convidadas para abrir, Preta Langy e o grupo feminino AfroNordestinas (vencedor do Hútuz 2007 e 2010 categoria demo feminino).

Então, rolou a proposta de reunir mais mulheres da cena pra contemplar um momento tão excepcional que era artistas femininas abrirem um show de uma atração nacional e foi justo na formatação desse show combo que todas as mulheres envolvidas entenderam que o projeto tinha tudo pra ter continuidade e já nessa primeira apresentação se lançaram como um novo projeto na cena local.

No início, eram só mulheres no projeto, mas já nos primeiros meses, o grupo passou por uma reconfiguração e hoje, as pessoas que integram são:

Kalyne Lima foi a segunda rapper a surgir no cenário paraibano, além de ser também militante social, produtora cultural e jornalista. Em quase 20 anos de carreira, carrega conquistas como o Prêmio Hútuz (2007 – 2010) e o lançamento do disco "AfroNordestinas" (2010).

Preta Langy tem 10 anos de inserção no rap paraibano, dona de um timbre grave e forte, flow vibrante, letrista que se inspira em estilos como dancehall e reggae, fazendo de sua música contagiante, com mensagens que buscam ideias de paz e conscientização.

Camila Rocha é poetisa de nascença e há quase 10 anos se dedica ao REP (ritmo e poesia, como gosta de abrasileirar), lançando em 2015 seu primeiro EP "Poesias Recortadas", com fortes influências do reggae, samba e música brasileira. Uma das artistas mais provocadoras da cena local, é também uma talentosa artista visual e uma das principais vozes do #Feminismo no estado.

Giordana Leite é dançarina e coreógrafa com quase 20 anos de carreira, considerada uma das maiores referências de reggaeton e dancehall do Brasil. Pesquisadora, transita entre a dança de salão e a dança de rua, desenvolvendo um estilo que lhe rendeu grande destaque na cena nacional.

Priscila Lima "Witch" é uma das artistas mais importantes da cena do graffiti paraibano, com uma produção que alterna entre os trabalhos de ocupação das ruas e a produção de telas e produtos. Criadora da personagem Catrina, uma caveira que surge em diversos contextos femininos com o objetivo de retratar e empoderar as mulheres.

DJ Guirraiz é campeão nordeste 2008 do DMC Brasil e vencedor do Spin DJs 2010, além de outras premiações como o DJ Scratch e o Hip Hop DJ.

Já se apresentou em diversos estados do país de maneira solo e em grupo, sempre incluindo técnicas de performance de turntablism e técnicas de visual turntablism. Como produtor musical, trabalha em remixes e produções de artistas de diferentes segmentos, como o rapper brasiliense GOG, os cantores paraibanos Totonho e Beto Brito e mais recentemente o projeto Vice Versa com o cantador Oliveira de Panelas, a Orquestra Sanfônica da Paraíba e a rapper Kalyne Lima.

Como se deu a escolha do nome?

Antes do grupo ter esse formato de banda, houve um coletivo formado por #mulheres artistas e conspiradoras culturais, o objetivo era proporcionar o protagonismo feminino na produção, o grupo se desarticulou e o nome, que foi criado por Camila Rocha, sugere a "liga" que nos aproxima e nos une acabou sendo fortalecido com esse projeto musical que surgiu na sequência.

Como foi o processo de criação do EP ‘Campo Minado’?

Esse EP é, na verdade, uma parcela do que estamos produzindo, faz parte de um conjunto de produtos que serão lançados até março de 2018, dentre eles o próprio EP com cinco faixas, onde quatro são inéditas e uma faixa bônus com a musica Quem Diss, lançada em 2016. Além do EP, ainda estaremos lançando lyrics videos, videoclipes, além de mais alguns singles.

As composições são todas das rappers paraibanas, Kalyne Lima, Preta Langy e Camila Rocha, com a participação de Julyana Terto na música Quem Diss. Essa faixa foi masterizada por Luis Café.

O trabalho conta com mixagem pelo DJ Guirraiz (Digital Bump) e Giulian Cabral (GC Estúdio); masterização por Leandro Morgado (DJ LM); arte da capa por Vanessa Cardoso e fotos e diagramação por Marcelo Rodrigues; produção executiva pela Campo Minado Produções e pela Toroh Música & Cultura

Como o feminismo influencia o trabalho do grupo?

Todas as integrantes se consideram feministas e impregnam no trabalho suas perspectivas a partir de um olhar empoderado, autônomo, seja no rap, na dança ou no graffiti, expressões que levamos ao palco durante as apresentações. Isso também é vivenciado na relação com o nosso DJ e produtor musical Guirraiz, é uma relação baseada na construção e na desconstrução constantes. Estamos aprendendo umas com as outras e isso tem impactado tanto no trabalho quanto em nossas vidas pessoais.

Como é ter um grupo de hip hop de mulheres? Vocês sentem preconceito?

Na verdade a gente não se encara como um grupo de hip hop de mulheres, a gente se encara como um grupo de hip hop. Acreditamos que a música não tem gênero, mas nossas pautas sempre trarão uma perspectiva nossa e nós somos no cotidiano, mulheres #Feministas e isso é fato. O tom do que abordamos sempre trará esse olhar.

O fato de sermos a maioria mulheres, e assumindo o protagonismo nesse processo de produção, de fato gera desconforto em algumas pessoas, sofremos esse preconceito na vida, apenas pelo fato da gente existir e ser mulher, no rap nunca foi diferente. No grupo há integrante de cerca de 20 anos de carreira, imagina como foi viver essa cena há 20 anos.

No entanto, vivemos um novo momento, a música que fazemos tem tocado um público para além do convencional do rap. Muitas mulheres, gays, drags, a galera LGBT em geral se identificam e têm nos fortalecido nesse processo, mas também temos atraído a atenção de pessoas sem muita familiaridade com esse gênero de música e isso tem nos estimulado a sempre ter um olhar atencioso sobre o que fazemos e as linguagens que usamos.

Quais são suas as influências? Que mulheres inspiram vocês?

Inicialmente, somos fonte de inspiração umas das outras. Antes do grupo, cada uma tinha um trabalho já estabelecido na cidade e todas já acompanhavam os trabalhos que cada uma produzia.

Mas hoje, o Brasil cheio de mulheres que só nos inspiram, de Bárbara Sweet, Brisa Flow a Belladona, Flora Matos, Preta Rara, Rap Plus Size, Lady Laay... Impossível citar todas porque a lista é imensa e, independente da produção musical que é de alto nível, só pra constar, a existência delas na cena já é uma grande inspiração pra todas nós e nem chegamos a citar as minas no graffiti, da dança e da discotecagem que também nos influenciam.

E agora, com o lançamento do EP, como está a agenda do grupo?

Então, lançamos o EP virtual nesse último dia 13. No próximo sábado (18), vamos lançar o CD físico, que é praticamente um produto artesanal, o encarte é feito individualmente por nós através de dobraduras. Então, cada unidade tem literalmente nosso trabalho braçal nossa energia mais vibrante.

Em seguida vamos fazer a nossa primeira turnê passando por Olinda, Feira de Santana e Salvador (BA), Fortaleza e agendas a serem confirmadas em mais quatro cidades da região.

Nos próximos dois meses, estaremos lançando dois videoclipes e já estamos trabalhando no nosso segundo EP. Então, até março já temos uma série de produtos pra sair, além de estarmos investindo numa linha de camisas e assessórios com a nossa marca, por entendermos que o empreendedorismo e a sustentabilidade devem andar juntos a nossa produção artística.