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Um vídeo compartilhado desde o dia 7 de fevereiro nas redes sociais, falando sobre fantasias que não devem ser usadas no Carnaval, trouxe à tona um debate sobre o quanto a representação de determinados grupos pode se dar de forma preconceituosa, por reforçar características negativas.

No dia 3 de fevereiro, sábado, um bloco tradicional de Juiz de Fora [VIDEO] (MG), chamado Domésticas de Luxo, desfilou no Centro da cidade sob protestos de jovens negros. No bloco em questão, homens se fantasiam de domésticas negras, alegando ser essa uma homenagem às empregadas de mulheres ricas que são obrigadas a trabalhar durante o Carnaval.

Contudo, a "homenagem" é a reprodução de forma extremamente caricatural de empregadas domésticas que são majoritariamente negras.

Homens que se vestem como mulheres no Carnaval [VIDEO], de fato, adotam uma postura baseada no estereótipo negativo da mulher como escandalosa e histérica, reforçando um posicionamento historicamente machista. Ademais, muitos se aproveitam da permissividade das festas para assediar travestis, como se elas também fossem apenas homens vestidos de mulheres.

Os estereótipos de gênero somam-se ao racismo em outra fantasia recorrente, a da Nega Maluca, personagem que aparentemente teve origem em uma música da década de 1950, de Evaldo Ruy e Fernando Lobo, gravada na forma de marchinha de Carnaval por Linda Batista e contendo o seguinte verso: "Tava jogando sinuca, / Uma nega maluca me apareceu, / Vinha com um filho no colo, / E dizia pro povo que o filho era meu".

A letra teria sido inspirada em um episódio presenciado por Lobo quando, em um bar, uma mulher adentrou com um bebê para abordar um sujeito que, segundo ela, era o pai de seu filho. O compositor Fernando Lobo criou a fantasia a partir da personagem Topsy, do livro A Cabana do Pai Tomás.

A ideia de que a mulher negra, ao confrontar publicamente o homem que acreditava ser o pai de seu filho, só pode ser louca, revela o quanto a própria letra da marchinha de Carnaval se baseia em uma visão racista e machista, ao desdenhar da atitude desta que se tornou a personagem principal da música.

Uma justificativa recorrente para a manutenção de certas práticas e manifestações é a da tradição, como se a ideia de repetição fosse o bastante para que certos hábitos tenham continuidade. Explicações envolvendo "tradição" e "Humor" vem sendo usadas para transformar valores condenáveis em algo perfeitamente aceitável e que não precisa ser criticado nem problematizado.

A expressão "é só uma fantasia" esconde em si a função social do humor, das piadas que, construídas a partir de preconceitos, são vistas como inofensivas apenas porque provocam o riso.

Na verdade, as teorizações acerca do humor mostram como ele atende à ordem e à manutenção do poder quando traz à tona, por exemplo, o racismo recalcado, fazendo com que todos riam de um chiste que lance mão de um estereótipo negativo associado ao negro. O riso, nesse sentido, é a confirmação de uma simbologia, de um conhecimento partilhado e reconhecido por todos.

Quando um indivíduo faz uma piada sobre uma característica específica de um indivíduo, apontando para sua peculiaridade, a ridicularização advinda desse ato terá um efeito de adequação - ou, pelo menos, de desejo de adequação - na pessoa que foi alvo da piada. Dessa forma, um gordo que tenha seu corpo ridicularizado sentirá que, para se adequar, precisa emagrecer, um gago, que precisa policiar sua fala, um homossexual afeminado, que precisa mudar seu comportamento e assim por diante.

O humor, quando direcionado ao diferente e ao excluído, portanto, não tem nada de politicamente incorreto. Pelo contrário, ele vai ao encontro dos valores politicamente vigentes, reforçando-os de forma conveniente para os privilegiados, os quais dificilmente serão alvo desse tipo piada ou brincadeira.

Voltando para o Carnaval, é notável que as fantasias de tipos humanos volte-se para a reprodução do que é considerado engraçado, ridículo ou exótico. Partindo de estereótipos, representam, então, aquilo que está social e politicamente vigente, mas repetindo sempre que "é tudo brincadeira".

Curiosamente, o mesmo argumento de ser só uma fantasia ou de se tratar apenas de uma personagem não é válido para drag queens contra as quais o conservadorismo protesta. Afinal, subverter os valores tradicionais é que tem se mostrado o grande problema.