“Botem o corpo em cada frase da música”. Era isso o que dizia o professor na aula de Maracatu, estimulando as crianças a sentir o ritmo por meio dos instrumentos e da dança. Em roda, elas exteriorizam todas as suas energias, batucando tambores e balançando chocalhos, acompanhadas pelo som do agogô, típico do ritmo pernambucano.

Outras crianças, com os pés descalços, dançam com passos combinados, dando giros e fazendo movimentos com os braços, na leveza de uma brincadeira, mas sempre atentos à percussão.

E é assim que acontecem as aulas na Oca - Associação Aldeia de Carapicuíba, projeto social de resgate da cultura afro-brasileira em Carapicuíba, São Paulo.

O município periférico possui um patrimônio histórico que data de 1520, uma aldeia jesuíta, construída pelo padre José de Anchieta para proteger os índios da escravidão. A partir disso e observando a vulnerabilidade de alguns jovens, um grupo de profissionais deu iniciativa ao projeto há 21 anos.

A Oca passou por vários lugares até se estabelecer no entorno do aldeamento jesuítico, área tombada pelo patrimônio histórico.

A arquitetura remete a uma aldeia indígena, composta por dois andares, o teto é feito com telhas de pau a pique e as cores das paredes se aproximam de um tom de barro. A prefeitura cedeu o espaço para as aulas, mas para continuar de pé a Oca conta com doações de alimentos, parcerias e professores.

“A ideia do projeto é levar os alunos a lugares que eles nunca foram, principalmente pela música. Por meio dela, tive a oportunidade de conhecer outros países.

Então, queremos abrir a mente deles para que vivam isso também”, diz Paulo Blec, professor e ex-aluno da Oca.

Com formação em música brasileira, ele conta que já recebeu crianças que não tinham o que comer em casa e que o maracatu foi um meio de dialogar com elas. Ele transmite o seu conhecimento ao lado de professores que ensinam frevo, coco de roda, ciranda, afrouxe, maculelê e capoeira, além de reforço escolar.

Para Walter França, mestre do Maracatu Nação Estrela Brilhante, fundado em 1910, em Pernambuco, é fundamental que a manifestação cultural germine em outros lugares. “O maracatu é uma dança de rua, um batuque que veio da África, misturou-se ao folclore daqui e cresceu. Hoje ele é muito maior no Brasil do que na África”, explica o mestre.

Na Oca, as crianças ajudam no cuidado da horta e zelam pelo espaço, como em suas casas. Os colaboradores passam por atendimento psicológico para dar maior suporte às crianças, que, se necessário, podem contar também com acompanhamento. Nas oficinas de arte, eles aprendem a montar instrumentos, brinquedos e confeccionar fantasias.

Gabriel Vasconcelos, estudante de 15 anos e frequentador da Oca, conta que já viu outros jovens entrando para o mundo do crime e lamenta saber que alguns pais não deixam os filhos frequentarem o projeto por preconceito contra a cultura africana. “Aqui a gente aprende não só sobre a África, como também sobre nós mesmos, o povo brasileiro”, finaliza o estudante.

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